Por quê? (466) — O DIA EM QUE A GLÓRIA BATEU À MINHA PORTA

Cláudio Amaral

Há acontecimentos que a gente espera.

Há outros que nos surpreendem.

E há aqueles que acontecem de uma maneira tão simples, tão despretensiosa, que, no instante em que acontecem, parecem apenas mais um fato do cotidiano.

Só depois é que a gente percebe que havia alguma coisa diferente naquele momento.

Foi assim comigo.

A história começa nesta terceira semana de Setembro.

Eu estava em casa. Sozinho. Ou melhor: eu e Deus.

A Sueli estava participando de um curso no Ateliê da Professora Rute Sato, e eu trabalhava no meu house office, diante do computador, envolvido com minhas atividades de escritor.

Até que a campainha tocou.

Levantei-me da frente do computador e fui até a janela que dá para a rua.

Abri a janela e vi uma cidadã parada diante do portão.

Na mão direita, ela segurava um papel. Com a mão esquerda, segurava uma das alças do carrinho que carregava três caixas de papelão.

Olhei.

Ela olhou.

E eu disse: “Sim?”

Então veio a frase: “São os livros do Cláudio Amaral”.

Meu coração, naturalmente, deu aquela acelerada.

Livros? Meus livros? Os livros!

Desci correndo. Abri a porta de casa. Abri o portão.

A mulher perguntou: “Onde eu coloco essas caixas?”

Indiquei o lugar. E ela começou a descarregar as caixas.

E dentro delas estavam os primeiros cem exemplares da nova edição de Um lenço, um folheto e a roupa do corpo.

Cem livros. Os primeiros cem exemplares de uma história que começou muitos anos atrás.

Uma história que já havia sido publicada em 2016 e que, dez anos depois, estava novamente chegando à minha vida. Agora em uma nova edição.

Mas ainda havia uma formalidade a cumprir.

Ela me entregou o papel que trazia na mão direita e pediu que eu assinasse.

Era a nota fiscal.

Assinei. Tudo absolutamente cotidiano.

Até que ela me perguntou: “O Sr. é o Cláudio Amaral? O autor do livro que aqui está?”

Respondi que sim. E então, talvez sem imaginar o que sua próxima resposta provocaria em mim, perguntei:

— Qual é o seu nome?

Ela sorriu. E respondeu: “Glória”

Foi aí que alguma coisa aconteceu dentro de mim.

Não sei explicar exatamente o quê.

Sei apenas que aquele nome ficou: Glória.

Eu havia passado dias esperando aqueles livros.

Havia acompanhado cada etapa com a colaboração do Editor Wilson Marini, gestor da Marini Soluções Editoriais.

Havia vivido ansiedade, expectativa, preocupação.

E agora, finalmente, os primeiros cem exemplares estavam ali.

Dentro de três caixas. Na minha casa. E a pessoa que os trouxe se chamava... Glória.

Pode ser coincidência. Claro que pode. Pode ser apenas o nome daquela mulher. E era.

Mas eu não consigo impedir que o coração faça as próprias associações.

Porque eu estava sozinho. Ou melhor: eu e Deus.

E naquele momento, quando, finalmente, chegavam os primeiros exemplares do livro pelo qual eu tanto havia esperado, uma mulher bateu à minha porta trazendo três caixas.

E o nome dela era Glória.

Talvez outra pessoa tivesse recebido aquelas caixas, assinado a nota fiscal, agradecido e seguido a vida.

Eu também agradeci. Mas não consegui seguir adiante tão rapidamente.

Fiquei olhando para as caixas. Aquelas caixas de papelão não eram apenas caixas.

Dentro delas estavam cem exemplares.

Mas, dentro daqueles cem exemplares, havia muito mais do que papel, imagens, tinta, capa, páginas e letras.

Havia uma parte da minha vida. Havia o menino do interior. Havia o Jornalista que começou a escrever profissionalmente ainda jovem. Havia o homem que enfrentou perdas e recomeços. Havia o escritor que, em 2003, escreveu este romance. Havia o autor que conseguiu publicá-lo pela primeira vez em 2016. E havia aquele mesmo homem, dez anos depois, diante de uma nova edição.

Tudo isso estava dentro daquelas três caixas.

E talvez por isso a emoção tenha sido tão grande.

Talvez por isso tenham vindo as lágrimas.

Porque existem momentos em que a gente olha para alguma coisa e percebe que ela carrega consigo muito mais do que aquilo que os olhos conseguem enxergar.

Eu não sei se foi uma coincidência. Não sei se foi uma delicadeza do destino. Não sei se foi simplesmente uma dessas pequenas ironias bonitas que a vida gosta de preparar para nós. E não tenho a pretensão de explicar.

Prefiro agradecer. Agradecer pelos livros. Agradecer pela oportunidade de vê-los novamente publicados. Agradecer por todas as pessoas que fizeram parte desse caminho.

Agradecer pela vida. E agradecer, também, por aquela mulher que apareceu diante da minha porta com um carrinho, três caixas e uma nota fiscal.

Uma mulher que, naquele instante, era apenas a responsável pela entrega dos meus livros.

Mas que, para mim, acabou se tornando personagem de uma história que jamais esquecerei.

Porque ela poderia ter chegado, entregue as caixas e ido embora.

E, de certa forma, foi exatamente isso que fez.

Só que, antes de partir, deixou comigo uma palavra. Uma palavra que não estava dentro das caixas. Uma palavra que não constava da nota fiscal. Uma palavra que não fazia parte do texto do meu romance. Uma palavra que, naquele instante, ganhou outro tamanho: Glória.

Talvez seja por isso que eu não consiga contar esta história dizendo apenas: “Os primeiros cem exemplares do meu livro chegaram”.

Não.

Para mim, naquela quarta-feira, dia 16 de Setembro de 2026, aconteceu algo diferente.

Eu estava trabalhando em meu house office. A Sueli (minha parceira de todas as horas há 55 anos) estava fora, no curso.

Eu estava sozinho em casa. Ou melhor: eu e Deus.

A campainha tocou. Eu fui até a janela. Abri. Havia uma mulher na calçada, um papel na mão direita e um carrinho com três caixas de papelão.

Ela disse: “São os livros do Cláudio Amaral”.

Eu desci correndo. Abri a porta. Abri o portão. Assinei a nota fiscal.

E, quando perguntei o nome daquela mulher, ela sorriu e respondeu: “Glória”

E eu fiquei pensando... Por quê? Por que justamente naquele dia? Por que justamente naquele momento? Por que justamente ela?

Não sei. Talvez eu nunca saiba.

Mas sei de uma coisa: eu estava esperando um livro.

E naquele dia a Glória bateu à minha porta.

 

Cláudio Amaral

Jornalista e Escritor

17/09/2026 15:42:46

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