Por quê? (412) – O meu coelhinho de estimação
Cláudio
Amaral
Assim
como o Poeta Manuel Bandeira teve um bichinho de estimação, o chamado Porquinho
da Índia(*), também tive o meu. E o meu bichinho de estimação
não era um porquinho, mas um coelhinho.
Isso
foi lá pela segunda metade dos anos 1950, quando, tal como Bandeira, tinha ieu
em torno de seis anos de idade. Na época, minha família, toda formada por
caipiras do Interior paulista, morava, aqui na Capital paulista, no bairro do
Sacomã, logo depois do famoso e histórico Ipiranga.
Havíamos
vindo de Adamantina, a cerca de 600 quilômetros da Capital, porque meu pai,
Lázaro Alves do Amaral, buscava cura para a paralisia infantil do terceiro,
Clóvis Francisco. E fomos morar no único lugar em que existia um imóvel com
aluguel que ele, o pai, conseguia pagar.
Como
a situação financeira da família era difícil, todos nós trabalhávamos: o pai
como tintureiro, ieu como ajudante numa sapataria do bairro e depois
como auxiliar dele, minha mãe e a mais velha de todos os filhos do casal nos
afazeres domésticos. O irmão, não, até porque ele mal conseguia andar com as
próprias forças.
Aconteceu
que nos meus raros momentos de lazer, entre os estudos numa escola pública do
Moinho Velho, o bairro vizinho, e o trabalho nas lavanderias em que o pai era
empregado, ieu comecei a criar coelho. Não um, mas vários, até porque a
gestação deles é de apenas um mês e por vez e de uma mesma fêmea nascem quatro
ou cinco ou mais filhotes.
Todos
viviam no quintal, cujo chão era de terra. E na terra os meus coelhos faziam um
buraco, onde se escondiam. Minha irmã Cleide, a primeira, me ajudava a
alimentar os meus bichinhos de estimação, que hoje seriam chamados de pets.
Todos comiam capim e outros alimentos verdes que eram colhidos na vizinhança.
Éramos
felizes. Todos. Os humanos e os animais. Adultos e crianças dividíamos espaço
no pavimento térreo de um imóvel simples. Nossa alimentação também era simples.
Tanto que um dia a Dona Wanda, a mãe, não teve saída: foi obrigada a sacrificar
um coelho adulto para preparar a mistura do nosso almoço. E todos comemos bem.
Todos acreditávamos estar comendo carne de frango. E ieu parei de
mastigar quando minha mãe, sem saída, teve que admitir que aquela carne e
aqueles ossinhos não eram de galináceos, não: eram de um dos meus coelhinhos.
O
tempo passou e voltamos a viver na minha cidade natal, Adamantina. Isso se deu
logo após a Copa do Mundo de 1958, a primeira ganha pela seleção brasileira de
Gilmar, Didi, Vavá, Pelé e companhia. E lá tive outros animais de estimação.
Entre eles alguns cachorrinhos. Nenhum, entretanto, chegaram a ser tão queridos
como os coelhinhos da cidade grande.
Os
anos correram, me tornei adulto e profissional do Jornalismo, mudei de
Adamantina para Marília, depois para Campinas e após seis meses estava de volta
à Capital. Tudo isso por conta da profissão. Namorei, noivei, me casei em 1971,
viajei o Brasil e parte do mundo. Com a Sueli, minha esposa há desde 1971, tive
quatro filhos e, para encurtar a conversa, desde 2011 o bichinho de estimação
da nossa casa é uma tartaruga marinha. Ela não é exatamente nossa. É dos
netinhos Beatriz e Murilo. Eles a ganharam nos respectivos primeiros anos de
vida da Titia Grazi e do Titio Flávio. E aqui a pequena Poliana ficou porque não
pode ir com eles, mesmo tendo certidão de nascimento. Poli, como a
chamamos o nosso bichinho de estimação, ficou sob a guarda e os cuidados dos
avós maternos.
Voltando
no tempo mais de 60 anos, lembro-me que, mesmo sem alternativa, Dona Wanda
nunca mais sacrificou um dos meus bichinhos de estimação para nossas refeições.
E nós jamais tivemos que comer carne de coelho.
Por quê?
Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?
(*) Cláudio
Amaral (claudioamaral49@gmail.com) é
Católico Apostólico Romano, Corinthiano e devoto de Santo Agostinho e Santa
Rita de Cássia. É autor dos livros Um lenço, um folheto e a roupa do corpo (2016) e Por quê? Crônicas de um questionador (2017). É
Jornalista desde 01/05/1968, Mestre em Jornalismo para Editores pelo IICS/SP
(2003) e Biógrafo pela FMU/Faculdade de História/SP (2013/2015).
(*)
Porquinho-da-índia
(Manuel Bandeira) | Poesia Infantil (wordpress.com)
09/07/2021
14:15:23 (pelo horário de Brasília)
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