sexta-feira, 2 de abril de 2010

Por quê? (196) Dúvida cruel


Cláudio Amaral

Sempre disse não ter medo da morte.

Sempre.

Mas... será que falo a verdade... ou falo apenas da boca pra fora?

Essa dúvida cruel me perseguiu quase que a semana toda, neste final de março e começo de abril de 2010.

Nos primeiros dias, porque tive que tomar contato com relatos a respeito de problemas sérios em relação à saúde.

Li, por exemplo, o relato de um cidadão que havia sido informado por um médico que estava com um tipo inédito de câncer.

Fiquei abalado, deprimido, arrasado.

E pensei: “Será que eu teria forças para reagir como ele, enfrentar a doença e buscar a cura como ele fez?

No dia seguinte, outro baque: a notícia da morte do jornalista Engel Paschoal, com quem convivemos, Sueli e eu, por longos anos.

Fiquei novamente abalado, deprimido, arrasado.

E, tomando como exemplo o caso do cidadão que havia descoberto ser portador de câncer raro, procurei não me entregar.

Pelo contrário: tomei coragem, dei um tempo no texto que estava a fazer e fui até o velório da Beneficência Portuguesa, no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Fui me despedir de Engel e aproveitei para dar um abraço saudoso na mulher que fez companhia a ele ao longo dos últimos anos, 24 horas por dia: Lucila Cano, amiga das mais queridas.

Engel também foi levado por um câncer.

Um câncer na próstata.

Um câncer que o consumiu lentamente, mas jamais o impediu de trabalhar.

Nem mesmo no último dia de vida dele, quando pediu a Lucila que o ajudasse a cumprir o compromisso semanal que tinha com o UOL e jornais diários.

Foi a ela que ele ditou seus últimos textos.

E foi ela quem me contou, pessoalmente, em frente ao caixão estacionado no velório da Beneficência Portuguesa de São Paulo, que ele se foi da forma que todos nós – ou quase todos – gostaríamos de passar deste mundo para o outro: dormindo.

A morte de Engel me fez lembrar de um outro grande Amigo: Carlucho Maciel, Amigo comum a nós todos – Engel, Lucila, Sueli e eu – e que nos deixou no dia 10/4/2008.

Carlucho também se foi repentinamente, enquanto caminhava numa das praias de Santos, junto ao Canal 1.

Foi, imagino, também sem sofrimento, pois tivera um enfarto fulminante em consequência dos muitos cigarros que fumava todo dia.

E como eu não tivera condições físicas para acompanhar o velório de Carlucho, evitei o quanto pude que o fato se repetisse em relação a Engel Paschoal.

Fiz de tudo o que me foi possível e fui me despedir dele, no velório da Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Ao sepultamento não me foi possível comparecer, até porque o corpo foi levado para o cemitério de Urupês, no interior paulista, onde Engel nasceu.

Ainda assim eu continuo com minha dúvida cruel em relação à morte: tenho ou não medo dela?

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968, repórter, editor, professor e orientador de jovens jornalistas, palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação empresarial e institucional.

2/4/2010 10:53:35