quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Por quê? (51) Falhamos

Cláudio Amaral

Quisera eu voltar, novamente, alguns anos da minha vida, tal qual me senti no episódio descrito na crônica anterior.

Alguns poucos anos seriam suficientes para relembrar o quanto os usuários de ônibus, de trens e do Metrô paulistano eram gentis, cavalheiros, solidários, educados.

Tenho visto e sentido na pele, de algumas semanas para cá, que os cavalheiros estão rareando nos coletivos do transporte público.

E hoje, comentando o assunto com um conhecido que tem dificuldade para caminhar, confirmei a minha suspeita: o cidadão em geral e os jovens em particular já não se preocupam com a presença ao seu lado de alguém mais velho, mais fraco, debilitado, enfim.

Nem mulher grávida tem se beneficiado mais das gentilezas de jovens do sexo masculino.

Eles – tanto os homens quanto as mulheres, jovens ou nem tanto – já não se levantam para que os mais velhos viagem sentados.

“Pelo contrário”, disse-me o tal conhecido meu.

E acrescentou: “Eles fingem que estão dormindo só para não se sentir na obrigação de ceder o lugar no ônibus, no trem ou no Metrô”.

Um absurdo, não?!

Foi-se, portanto, o tempo em que éramos todos gentis, cavalheiros, solidários e educados.

Bem educados, é bom que se diga.

E de quem é a falha, no caso?

Nossa!

Sim, caro e-leitor: a falha é nossa.

Por quê?

Porque nós não soubemos educar nossos filhos – os meus, os seus, os nossos – para que eles dessem continuidade ao comportamento politicamente correto que a maioria de nós teve quando jovens ou até bem pouco tempo atrás.

Lembro-me bem de ter crescido ouvindo meus pais dizerem que era indispensável dar o lugar para alguém mais velho ou para uma mulher, especialmente se ela estivesse grávida.

Mas, infelizmente, não foi isso que passamos adiante.

E agora, estamos pagando o preço dessa falta de educação, de cavalheirismo, etc.

Por quê?

E você ainda me pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com e do http://aosestudantesdejornalismo.blogspot.com.

27/2/2008 22:59:58

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Por quê? (50) Hayashi

Cláudio Amaral

Voltei no tempo por 40 anos, na tarde deste sábado, 23/2/2008.

O fato ocorreu ao final de meu encontro de negócios com o casal Gláucia e Cláudio Hayashi, na Vila Clementino, em São Paulo.

Assim que ela me disse o sobrenome do casal, senti um frio na barriga.

De imediato, lembrei-me de Adamantina nos anos 1960.

Eu era um rapaz de 18 anos, aproximadamente.

Já somava 12 anos de trabalho ininterrupto.

Meu melhor Amigo, na época, é uma pessoa que nunca esqueci e de quem jamais esquecerei.

Lembro-me do nome dele em detalhes: Adhemar (com h, tal qual o ex-governador do Estado de São Paulo) Shigueto Hayashi.

Nos conhecemos no grupo de jovens da Seicho-No-Ie.

Eu era o único integrante do grupo que não tinha descendência nipônica.

Nem por isso fui discriminado. Nunca. Jamais.

Tanto isso é verdade que cheguei a ser presidente da Associação dos Jovens da Seicho-No-Ie de Adamantina.

Hayashi também foi presidente da entidade e na gestão dele criamos aquele que viria a ser o meu primeiro jornal: O Sorridente.

Nas páginas daquele jornalzinho eu publiquei meus primeiros textos: notas, notícias, piadas, comentários e até... crônicas.

Eu ajudava Hayashi a editar O Sorridente, acompanhava a produção na gráfica, da composição ao final da impressão.

Foi ali que comecei a por pra fora minha tendência para o Jornalismo.

Além de escrever, editar e acompanhar a produção, eu também distribuía o jornalzinho dos jovens da seita criada pelo Mestre Masaharu Taniguchi.

Entregava em mãos cada exemplar, como se O Sorridente fosse um filho que eu ainda não tinha.

Mantinha uma coleção de cada edição na sede da Seicho-No-Ie e outra em minha casa.

Quando mudei para Marília, no dia 6 de janeiro de 1969, minha coleção foi comigo, mas não durou muito. Um dia, ao chegar em casa, na Avenida República, em Marília, vi que minha mãe havia usado meus jornalzinhos para tapar algumas frestas do nosso lar, exatamente entre as paredes de tijolos e as de madeira.

Chorei, mas nada pude fazer.

E foi assim que me despedi do meu primeiro jornal, O Sorridente.

Na época, meados de 1969, eu já não tinha notícias de Hayashi há anos.

Lembrava-me sempre dele, porque, além da nossa convivência na Seicho-No-Ie, por anos trabalhamos juntos na loja do tio dele: Hayashi como vendedor de máquinas de costurar, rádios e fogões; eu, como auxiliar dele.

Só voltei a saber de Hayashi em 1971, quando já estava casado e morando com Sueli aqui na Aclimação, em São Paulo.

Eu trabalhava no Estadão, no centro da cidade. Mesmo assim vinha almoçar em casa todo dia e, certo dia, ao entrar num trolebus da CMTC, a Companhia Municipal de Transportes Coletivos, dei de cara com um colega dos tempos de Seicho-No-Ie e ele me disse, na lata:

- Sabe quem morreu?

Como eu disse que não, ele acrescentou:

- A Keiko, mulher do Hayashi.

Tremi nas bases e com muita dificuldade cheguei em casa, na Rua Dr. Nicolau de Souza Queiroz, 915.

Chorei de novo.

Chorei pela minha Amiga Keiko Kawabata Hayashi e pelo meu Amigo Adhemar Shigueto Hayashi, que ainda deve residir em Barra do Piraí, no Estado do Rio de Janeiro.

E deles me lembrei hoje à tarde, graças ao casal Glaucia e Cláudio Hayashi.

Por quê?

E você ainda me pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com e do http://aosestudantesdejornalismo.blogspor.com.

23/2/2008 22:53:26

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Por quê? (49) Minuto de silêncio

Cláudio Amaral

Ela nasceu às 18h10 do dia 24 de fevereiro.

Por isso, exatamente às 18h10 deste 24 de fevereiro, quando ela completaria... (não se deve dizer a idade de uma mulher, quanto mais de uma Amiga tão querida).

Bem, continuando... exatamente às 18h10 deste domingo, 24 de fevereiro de 2008, os amigos de Adriana Moreira vão guardar um minuto de silêncio em homenagem a ela.

Minha querida Amiga Adriana Moreira nos deixou no dia 31 de março de 2007, um sábado, em plena flor da idade.

Era jornalista, como eu e um grande número de amigos que ela fez ao longo de pouco mais de 30 anos de vida.

No Brasil e em Portugal, onde estudou.

Em Pernambuco, principalmente, onde nasceu e cresceu.

Mas em muitos outros Estados brasileiros, também, porque Adriana tinha uma facilidade incrível para cativar e conquistar as pessoas.

Na certeza de que você está com Deus, Adriana, nós vamos te pedir que interceda por nós junto a Ele e que nos aguarde, porque um dia estaremos todos juntos, novamente.

Feliz aniversário, Amiga querida.

Em tempo: saiba mais a respeito de Adriana Moreira lendo a crônica 39.

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com.

22/2/2008 00:22:00

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Por quê? (48) Lázaro

Cláudio Amaral

O Evangelho de hoje, quinta-feira, 21/2/2008, me fez lembrar de uma das pessoas mais marcantes da minha vida: meu pai.

Por quê?

Porque o correio eletrônico que recebo diariamente das Paulinas me trouxe uma mensagem intitulada “A parábola do rio e de Lázaro”.

A mensagem é rica em significados.

Tão rica que eu a transcrevo aqui para que todos vocês, meus e-leitores, tenham oportunidade de conhecer...

A parábola do rico e de Lázaro
Lucas 16,19-31
Jesus continuou: - Havia um homem rico que vestia roupas muito caras e todos os dias dava uma grande festa. Havia também um homem pobre, chamado Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas, e que costumavam largar perto da casa do rico. Lázaro ficava ali, procurando matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do homem rico. E até os cachorros vinham lamber as suas feridas. O pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão, na festa do céu. O rico também morreu e foi sepultado. Ele sofria muito no mundo dos mortos. Quando olhou, viu lá longe Abraão e Lázaro ao lado dele. Então gritou: "Pai Abraão, tenha pena de mim! Mande que Lázaro molhe o dedo na água e venha refrescar a minha língua porque estou sofrendo muito neste fogo!" - Mas Abraão respondeu: "Meu filho, lembre que você recebeu na sua vida todas as coisas boas, porém Lázaro só recebeu o que era mau. E agora ele está feliz aqui, enquanto você está sofrendo. Além disso, há um grande abismo entre nós, de modo que os que querem atravessar daqui até vocês não podem, como também os daí não podem passar para cá." - O rico disse: "Nesse caso, Pai Abraão, peço que mande Lázaro até a casa do meu pai porque eu tenho cinco irmãos. Deixe que ele vá e os avise para que assim não venham para este lugar de sofrimento." - Mas Abraão respondeu: "Os seus irmãos têm a Lei de Moisés e os livros dos Profetas para os avisar. Que eles os escutem!" - "Só isso não basta, Pai Abraão!", respondeu o rico. "Porém, se alguém ressuscitar e for falar com eles, aí eles se arrependerão dos seus pecados." - Mas Abraão respondeu: "Se eles não escutarem Moisés nem os profetas, não crerão, mesmo que alguém ressuscite."

Meu pai foi Lázaro Alves do Amaral.

Nunca pensei em perguntar à minha avó paterna, Celeste, porque ele, meu pai, recebeu esse nome.

Mas, certamente, foi em homenagem à personagem bíblica à qual se refere o Evangelho de hoje.

Contra a vontade de minha mãe, meu pai me batizou Cláudio Lázaro Alves do Amaral. E ficou contrariado quando leu minhas primeiras reportagens e viu que elas foram publicadas com apenas o meu primeiro nome e o último sobrenome.

Expliquei a ele que isso era normal, uma praxe no Jornalismo, assinar apenas dois nomes: Juarez Bahia, Carlos Conde, Joel Silveira, Paulo Markun, Regina Echeverria, Nelson Urt, Carlos Lacerda, Daniel Pereira, Clóvis Rossi, Samuel Wainer, Eduardo Martins, Nelson Rodrigues, Augusto Nunes, Carmo Chagas, Machado de Assis, Renata Cafardo, Sérgio Leitão, José Mindlin, Luís Nassif, Antônio Callado, Reali Jr., Fernando Morais, Gay Talese, Almyr Gajardoni, Eduardo Nunomura, Mino Carta, Carlos Brickmann, Zuenir Ventura, Ricardo Kotscho, Carlos Prata, Vladimir Herzog, Plínio Marcos, por exemplo.

Exceções existiram e existem, mas são exceções: José Maria Mayrink, Mario Vargas Llosa, Carlos Eduardo Lins da Silva, Nelson Werneck Sodré, Gabriel Garcia Márquez, Rubens Ewald Filho, Luiz Adolfo Pinheiro, Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Roberto de Souza Queiroz, Otávio Frias Filho, Luiz Augusto Michelazzo, Corrêa Neves Júnior, Júlio de Mesquita Neto, Ramão Gomes Portão, Caio Túlio Costa são os exemplos que me ocorrem no momento.

Se ele, meu pai, entendeu ou não, nunca fiquei sabendo.

Sei apenas que ele mostrava com orgulho as páginas do Estadão nas quais eram publicadas minhas reportagens.

Mas, quem foi meu pai?

Foi um exemplo de pessoa.

Um exemplo em matéria de trabalho, de honestidade, de solidariedade.

Ele tinha defeitos? Sim, como todos nós.

Mas, era carinhoso e atencioso com os filhos, com os filhos dos filhos, com os amigos dos filhos, com os sobrinhos dos filhos...

Uma prova disso, que me lembro sempre, é que meus sobrinhos, mais sobrinhos de Sueli do que meus, sempre o chamaram de “vovô Lazinho”.

André Guilherme, Rogério Alexandre e Paula, filhos de José Cláudio e Lúcia Helena, faziam festa quando encontravam meu pai pelas ruas de Marília e invariavelmente gritavam: “vovô Lazinho, vovô Lazinho”.

Cristiano, Gustavo e Luciano, filhos da minha irmã caçula, Clélia, também eram muito ligados a meu pai.

Cláudia, Mauro e Flávio, meus filhos, infelizmente, não tiveram tanta convivência com ele, porque sempre moramos em São Paulo, a 460 quilômetros de Marília, cidade em que meu pai viveu os últimos anos de vida.

Profissões e atividades profissionais meu pai teve incontáveis. Mas, a mais marcante, para mim, pelo menos, foi a de tintureiro.

Ele foi empregado em lavanderias e tinturarias em São Paulo, nos anos 1950, quando eu também trabalhei com ele.

De volta a Adamantina, logo após a Copa do Mundo de 1958, ele montou a própria, a Lavanderia e Tinturaria Adamantina.

Poucos meses após minha mudança para Marília, onde fui trabalhar no Jornal do Comércio, em janeiro de 1969, ele, minha mãe, minha irmã caçula e meu irmão Clówis também se mudaram pra lá.

E lá ele faleceu em 1985.

Faleceu deixando um exemplo vida simples, dura, difícil, mas exemplar em todos os sentidos.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com.

21/2/2008 18:47:47

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Por quê? (47) Desencontro

Cláudio Amaral

Aquela figura no mínimo inusitada a que me referi pela primeira vez na crônica do dia 9/1/2008 viveu momentos de muita expectativa na manhã desta terça-feira, 19/2/2008.

Apressada e ansiosa, ela, a figura, saiu do Metrô na estação Santa Cruz às 7h55, atravessou por dentro do shopping, passou sem ser notada por uma mulher que lia o Diário de S. Paulo, mal olhou para a vitrine de uma loja de material esportivo onde gosta de admirar as camisas do Corinthians, subiu uma escada fixa, até porque a rolante estava em manutenção, e foi sair do outro lado.

Já era 8 horas e ela, a figura, queria embarcar no ônibus urbano que se dirigia para o bairro de Cidade Monções, mas chegou atrasada. Ligeiramente atrasada.

Auxiliada por um usuário daquela linha, ela, a figura, embarcou num outro ônibus, este intermunicipal, que se dirigia para a cidade de Embu.

Em dúvida, perguntou a uma usuária sentada nos banquinhos do ponto, mas continuou sem saber se a tarifa era de R$ 2,40 (urbana) ou R$ 3,30 (intermunicipal).

O esclarecimento só veio junto ao cobrador (ou trocador, como se diz em outros Estados do País).

“R$ 2,40”, disse o ocupante do lugar privilegiado junto à catraca.

Por que privilegiado?

Porque ali os cobradores em geral mais dormem do que trabalham.

Por quê?

Porque eles pouco têm a fazer desde a instituição do bilhete eletrônico.

Mas, isto não vem ao caso.

O que vem ao caso é que, confortavelmente instalada, a figura no mínimo inusitada arregalou os dois olhos para fora do coletivo e foi admirando tudo e todos que passavam.

Ficou encantada, por exemplo, com dois idosos que caminhavam de mãos dadas pela calçada do Hospital São Paulo, na Rua Pedro de Toledo.

Ambos calçavam tênis e ela foi quem mais chamou a atenção da nossa personagem.

Por quê?

Porque a senhora portava cabelos branquinhos, usava uma calça marrom tipo pula brejo e uma camisa branca de malha.

“Que lindo casal”, pensou a figura.

“Quero envelhecer assim”, acrescentou, mentalmente.

Logo, entretanto, a figura voltou seus pensamentos para o horário e o encontro que havia agendado para a Rua Indiana, uma travessa da Avenida Santo Amaro, na zona sul da Capital paulista.

Quando o coletivo ganhou a Santo Amaro a expectativa aumentou. E a temperatura só baixou quando ela, a figura, desceu do ônibus, não sem antes agradecer as gentilezas do motorista e do cobrador.

Meia dúzia de passos adiante e lá estava ela, a figura, na Rua Indiana.

O visor do celular marcava 8h40.

Faltavam ainda 20 minutos para o encontro.

Cinco minutos depois, lá estava ela, a figura, na porta do escritório do seu interlocutor.

“Cheguei tão cedo”, pensou, “que ele nem abriu a porta, ainda”.

Não mesmo.

O jeito era espera na calçada.

A espera durou mais de 15 minutos, até que o encarregado da segurança do local disse “bom dia”, abriu a porta de vidro e pediu que ela, a figura se acomodasse dentro do escritório.

O tempo foi passando e a expectativa aumentando.

O movimento nas calçadas também crescia.

Na rua, idem.

E nada do anfitrião chegar.

Deu dez horas, 11 horas, meio-dia... e ai a figura se levantou de vez e... nem assim foi embora.

Foi até a padaria mais próxima, comprou um sanduíche e um café expresso, lanchou e voltou.

Deu uma hora da tarde, uma e meia, mas nada.

A paciência acabou exatamente às duas horas da tarde, quando ameaçava chover.

A figura se levantou de vez, pegou a bolsa e o guarda chuva, engoliu a expectativa e a raiva em seco e saiu sem dizer coisa alguma.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com.

20/2/2008 00:12:16

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Por quê? (46) Bloguei


Cláudio Amaral

O correto seria dizer: capitulei.

Mas, eu prefiro afirmar que... bloguei.

Sim, bloguei.

O que significa dizer que eu bloguei?

Significa reconhecer que me curvei às sugestões de Amigos e, com a ajuda de Flávio, o meu filho caçula, que acaba de completar 28 anos de idade, criei o meu blog.

O Blog do Cláudio Amaral está no ar desde a noite do dia 14/2/2008.

Foi bem mais fácil do que eu imaginava.

Se doeu?

Nada!

Foi só ir ao site http://blogspot.com/ e lá seguir os passos indicados.

Foi mais fácil do empurrar bêbado ladeira abaixo, embora eu nunca tenha feito isso.

Agora?

Agora, um a um, vou postando todos os meus textos.

Por quê?

Porque assim eles ficarão lá pra sempre.

Pelo menos é o que eu acredito e espero.

Um dia, minha mulher, meus filhos, Be(bê)atriz e outros(as) netos(as) que eu venha a ter, não terão o trabalho de correr atrás de papéis para reunir os meus escritos.

Todos (ou quase todos) estarão reunidos, ordenadamente, no meu blog.

Até chegar a isso, entretanto, meses se passaram.

E muitas sugestões eu tive que ouvir e ler.

Primeiro, foi o casal de Amigos Nilva Bianco e Marcello Vitorino, jornalistas como eu e (mais importante) pais da pequena e querida Sofia Bianco Vitorino.

Depois, falou o Amigo (e consultor imobiliário) Edmar Torres Jr., o Torres.

Há pouco tempo, entre um correio eletrônico, um telefonema e uma sugestão cara-a-cara, veio a mensagem do Amigo (e advogado e jornalista e radialista) Vinicius Araújo, paulistano residente em Franca (SP).

Enfim, na noite de 14/2/2008, sentei à frente do computador e fiz o meu blog.

Nele estão todas as minhas crônicas da série “Por quê?”, iniciada no dia 4/10/2007.

Depois que postei todas, uma a uma, comecei a recuperar as crônicas antigas, escritas em Franca, onde comecei a ensaiar minha carreira de cronista.

Entre uma crônica nova, fruto de minhas observações e meditações relativas à vidinha que eu levo, aqui em São Paulo, vou recuperando, editando e blogando as antigas, também.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com.

17/2/2008 11:02:04

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Por quê? (45) Campo Grande (MS)


Cláudio Amaral

Trabalhei, como costumo dizer, oito meses em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, e não de Mato Grosso, como ainda pensam muitos brasileiros.

Foi de agosto de 2004 a março de 2005.

O início e o final dessa jornada foram dolorosos.

Chorei muito quando lá cheguei e quase fui às lágrimas quando de lá sai.

Nos primeiros dias, chorava facilmente de saudades da família, que ficou em São Paulo.

Temia que minha mulher e os nossos três filhos pensassem que os havia abandonado.

Precisava usar óculos escuros sempre que saia do Hotel Paradise, na Avenida Eduardo Elias Zarhan, em frente à TV Morena, afiliada da Rede Globo.

Procurava me acalmar e conter as lágrimas assim que me aproximava da sede do jornal em que fui trabalhar.

E antes de entrar na Redação passava no banheiro e lavava o rosto para me livrar da cara de choro.

Bastava dar início ao trabalho e esquecia de tudo e de todos.

Só quando deixava o jornal, 15 horas depois, é que voltava a sentir um aperto no peito e uma angústia que jamais sentira.

A situação se complicava quando eu entrava no pequeno apartamento do hotel.

Era mais quarto do que apartamento, por causa do tamanho e da falta de móveis e lugares para acomodar as roupas.

Nem onde deixar a escova de dente, o creme dental e a escova de cabelos eu tinha naquele cubículo.

Os dias foram passando, a saudade da família aumentando e a paciência esgotando.

E acabou no sexto dia, exatamente na data da primeira visita da Sueli.

Não tive dúvida: empenhei até as calças, juntei tudo o que havia levado de casa, joguei num Fiat batendo latas que era usado pelos repórteres do jornal e troquei o hotel da Avenida Zarhan por um apart-hotel da Rua das Garças, do outro lado da cidade.

Quando Sueli desembarcou no aeroporto de Campo Grande, quase meia-noite da primeira sexta-feira de agosto de 2004, o apartamento 23 do Brunette Studio ainda estava por ser arrumado.

E, para minha alegria, ela me ajudou a colocar tudo em ordem.

Em menos de duas horas as roupas estavam todas no amplo guarda-roupas, a cama com lençóis e travesseiros limpos e cheirosos, a cozinha pronta para uma refeição digna e o banheiro em condições de permitir que lavássemos até da alma.

Não deu outra: vivemos momentos inesquecíveis naquele que batizamos de “ninho de amor”.

Lá e em muitos outros lugares da capital sul-mato-grossense: nos cinemas, nos teatros, nas livrarias, nos sebos, no único shopping da cidade, nos parques, nas ruas e avenidas amplas e arborizadas, nas igrejas – especialmente na do Colégio Dom Bosco, na Avenida Mato Grosso –, nas unidades do Sesc, no mercadão, na feirona, nos bons restaurantes e nas padarias.

Sim, nas padarias, porque Campo Grande tem padarias inigualáveis e inesquecíveis.

Até amigos fizemos por lá: gente de televisão (em especial a apresentadora Ana Volpe, que morava no mesmo andar), o casal de feirantes que acabei transformando em personagens no jornal, alguns outros vizinhos, o barbeiro, a manicure e até funcionários do apart-hotel.

Colegas de trabalho, também. Em especial os editores Nelson Urt e Walter Gonçalves (o Waltinho, que levei de Araçatuba, mais a mulher, Ge, e os dois filhos: Rodrigo e Bruna, que adotei como sobrinhos).

Foi um tempo difícil para mim e para Sueli.

Para os filhos também, porque eles tiveram que se adaptar, em casa, à ausência dos pais: eu, que viajava uma vez por mês a São Paulo, e Sueli, que passava duas semanas na capital paulista e outro período igual comigo, em Campo Grande.

Tiveram, os filhos, ainda, que assumir boa parte das despesas da nossa casa em São Paulo.

De tudo isso, sobrou uma união ainda mais forte entre eu e Sueli e nós dois e os filhos.

Cada um soube reconhecer a importância dos outros.

E todos conheceram na pele e na carne a importância da família.

Hoje, a família é outra.

Cada um está mais forte.

A confiança entre todos aumentou.

A fé em Deus cresceu.

E eu vivo agradecendo a Ele, diariamente, por ter-me feito ver que sempre é possível ser mais feliz. Por mais feliz que alguém seja.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

Franca (SP), 04/07/2005 23:09:16

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Por quê? (44) Professor Cruz


Cláudio Amaral

Essa vai em primeira pessoa, mesmo.

E o recado que tenho para passar aos meus leitores é o seguinte: nunca pensei em escrever crônica.

Nem crônica, nem poema.

Poesia?

Muito menos.

Sempre gostei de escrever notícias, reportagens, comentários. Fatos. De preferência, fatos do dia, quentes. Até porque, como me dizia Carlos Prata, chefe de reportagem na sucursal paulista do Diário de Notícias do Rio de Janeiro: “Jornal é diário e fecha cedo”.

De 2000 em diante, me meti a escrever romances, também. Dois estão concluídos: A menina movida a energia solar (2001) e As aventuras de Claude Amarante (2003), ambos ainda inéditos.

Por concluir, tenho outros dois projetos de livros romanceados: Marcão, você é gay? e Conflitos.

Nos planos, possuo outros quatro, pelo menos: os romances Uma nova vida para Claude Amarante e O abraço que não houve e os técnicos Como surgem os jornais e A história da Comunicação Empresarial no Brasil.

Todos estão bem encaminhados. Os romances estão na cabeça e os técnicos, pesquisados. Faltam apenas tempo e disposição para escrever.

Minha vida de escritor, se é que eu posso ser considerado como tal, começou a tomar um novo rumo na tarde de 25 de junho de 2005, quando fui conhecer o professor e escritor Luiz Cruz de Oliveira, na casa dele, em Franca.

Ex-bancário, ex-jogador de futebol, professor de português de mão cheia, Cruz é um dos homens mais cultos de Franca. Tem 22 livros publicados.

Ao longo de duas horas de conversa das mais agradáveis, ele me ensinou muito. Disse que texto não é para ser engavetado. Seja crônica, livro, comentário, poema, poesia etc.

- Escreveu, publique, recomendou o professor Cruz naquela tarde e no exato momento em que a seleção brasileira de futebol derrotava a da Alemanha pela Copa das Confederações.

A conversa estava tão boa, mas tão boa, que eu nem me dei conta do jogo da seleção. Logo eu que gosto tanto de futebol. Só fui saber do resultado à noite e que tinha estragado os planos do professor Cruz no dia 3 de julho, quando nos encontramos pela terceira vez, no churrasco dos 90 anos do jornal Comércio da Franca.

Cruz, que cinco dias depois do nosso primeiro encontro lançou o livro Esboço de História da Literatura Francana, me abriu os olhos para a crônica.

- Antes do primeiro romance, escreva crônicas, determinou esse francano nascido em Santa Rita de Cássia, uma pequena localidade de Minas Gerais, mais paulista do que mineira.

A crônica, na opinião de Luiz Cruz de Oliveira, funciona como treinamento para a montagem de um bom romance.

- Agora é tarde, professor, eu disse a ele. E acrescentei: é tarde porque já escrevi dois romances inteiros.

Ele não desanimou e me incentivou a escrever crônicas.

Foi o que eu fiz no dia seguinte, domingo, 26 de junho de 2005.

Eu estava no apartamento 73 do Franca Inn Apart-Hotel.

Trabalhava num texto muito especial, a respeito da vida e da obra da jornalista e escritora francana Sônia Machiavelli Corrêa Neves.

Era um texto para a edição especial referente aos 90 anos do Comércio da Franca.

Tinha pressa, porque meu prazo terminaria dois dias depois. Mas, algo me incomodava. Era a crônica que insistia em nascer, em sair pelos meus dedos e ganhar a tela do computador.

Resisti firme. Terminei de fazer o que estava fazendo – digitar as anotações que havia feito enquanto entrevistava duas pessoas que me ajudaram a montar o perfil de Dona Sônia – e imediatamente em seguida passei a parir a minha primeira crônica.

Fiz e gostei.

Gostei tanto, que no dia seguinte escrevi outra e depois mais uma.

Essa é a quarta.

A quarta crônica de uma longa série, que, em breve, seguindo as lições do professor Cruz, mandarei para publicação.

Não sem antes submetê-las ao crivo de Cruz.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

Franca (SP), 05/07/2005 18:40:51

Por quê? (43) Barcelona


Cláudio Amaral

Sempre gostei muito de viajar, conhecer pessoas e lugares novos, admirar as paisagens, detalhar as nuances geográficas de uma região que não conhecia, apreciar o sotaque e o jeito típico de falar dos nativos.

Foi assim desde os tempos em que eu morava em Adamantina, no interior paulista, rumo ao então Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, a 600 quilômetros de São Paulo.

Assim foi quando me mudei com a família para Marília e depois para a capital.
E um viajante curioso e interessado eu continuei a ser por ocasião de nossa volta para Adamantina, logo após a Copa do Mundo de 1958, de uma nova mudança para Marília, dez anos depois, da primeira vez que fui a Campinas, em 1970, e no meu retorno a São Paulo, em 1971.

De São Paulo, já repórter do Estadão, eu pude conhecer quase todos os Estados do Brasil. E o fazia com o mesmo interesse e curiosidade que ia a bairros e lugarejos periféricos da capital paulista.

Estava sempre querendo conhecer gente e mais gente, lugares e mais lugares, costumes, atitudes, comportamentos.

Estava e estou até hoje, mais de 50 anos depois de minha primeira viagem.

Além do Brasil, conheci lugares e pessoas na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha, em Portugal...

Ao final de cada viagem eu sou uma pessoa mais rica, mais feliz, mais culta, mais cheia de vida e com mais vontade de viver.

Modéstia à parte, tá, gente?

Morei e vivi em Adamantina, Marília, Campinas, São Paulo (onde tenho residência fixa), Campo Grande (MS) e Franca.

Mas a cidade que mais me encantou, me deslumbrou, me alegrou, me encheu os olhos, me avivou a mente foi... Barcelona.

Estive lá em 2001 com a Sueli e um casal de amigos.

Ele já conhecia bem a cidade e nos levou a todos os principais pontos turísticos e culturais de Barcelona.

Fomos a museus, a parques, a teatros, a restaurantes, a cafeterias e andamos a pé pela cidade toda.

Fizemos o city tour, que, por sinal, é um dos mais encantadores de todos os que conheço.

Sim, claro, fomos à Catedral da Sagrada Família, idealizada e iniciada por Gaudí (Antônio Gaudí, arquiteto espanhol nascido em 1852 e falecido em 1926).

A chegada ao local só não foi um choque maior porque meu amigo Sérgio Kabayashi, nosso cicerone em Barcelona, fez o táxi parar a cerca de 200 metros de distância e nos preparou para o que veríamos.

Nunca mais vou me esquecer de tudo o que vi em Barcelona: nas ruas e avenidas repletas de obras de artes e de monumentos históricos, do Parque Güell, das famosas ramblas e, também, da praça central repleta de negros oriundos da África, sem ter o que fazer nem para onde ir.

Como foi bom conhecer Barcelona e o povo espanhol que lá encontrei.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

04/10/2007 19:16:50

Por quê? (42) DC

Cláudio Amaral

Para que parem de dizer por ai que eu só falo e escrevo a respeito do Estadão, hoje, sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008, dia de pagar a mensalidade do Sindicato dos Jornalistas, o assunto é o DC, o Diário do Comércio.


Fiz parte, ainda que informalmente, do conselho editorial do DC em 1992/94, quando coordenava o setor de Imprensa, RP e Marketing da Associação Comercial de São Paulo.

Fui pra lá a pedido do meu Amigo (e primo) Carlos Magagnini. E lá fiquei até receber um convite do Grupo Folha de S. Paulo, onde trabalhei por três anos.

Na época, o Diário do Comércio era um jornal modesto, pouco mais que um boletim oficial da ACSP, embora tivesse no comando da Redação um profissional de peso: Domingos Fraga, um carioca e vascaíno que depois foi fazer sucesso, e muito, em revistas e, até onde sei, ganha o pão honestamente na Rede Record de Televisão.

Quando Fraga deixou o DC, assumiu sua imediata Vilma Pavani, uma mulher firme, decidida e competente.

Mas as mudanças que o DC realmente precisava só vieram muitos anos depois, quando por lá chegaram outros pesos pesados do Jornalismo, cujos nomes não vou me arriscar a citar de cabeça pelo simples fato de que não quero cometer injustiças.

Bem, mas por que estou me dedicando ao DC nesta manhã cinzenta na Capital paulista?

Por quê?

Simplesmente porque voltei a receber o jornal na porta de casa, com o Estadão.

Tirei o exemplar do DC do saquinho plástico logo cedo e levei um susto.

Por quê?

Porque a capa é chocante.

É preta, amarela e vermelha de alto a baixo.

“Na foto principal”, explica uma das chamadas, “Daniel Day-Lewis contempla um dos poços que o fizeram magnata em Sangue Negro, filme que estréia hoje com 8 indicações para o Oscar”.

O poço, é bom explicar, está em chamas e isso é um dos motivos do meu susto ao empunhar o DC desta sexta-feira.

Eu não teria feito uma capa tão pesada, mas, talvez, para felicidade dos leitores do DC, não sou o editor de primeira página do jornal.

Tenho um Amigo que gosta de capas impactantes como essa do Diário do Comércio: Júnior, diretor de Redação de um outro Comércio, o da Franca.

Nas páginas internas, para compensar, o DC é bem mais agradável.

Nelas temos Paulo Saab, meu colega de reportagens nos anos 1970, ele pela Folha de S. Paulo e eu pelo Estadão; o publicitário Neil Ferreira, polêmico como sempre; o eterno Eymar Mascaro, com quem trabalhei na sucursal paulista do Correio Braziliense, no início dos anos 1990; a minha Amiga Denise Mirás, de inesquecíveis coberturas em jogos de vôlei e que a quem não vejo há anos e anos (gostei do título, Mirás: “Toda estrela brilha. Algumas choram. Outras se apagam”, fazendo referências a Guga e Ronaldo, o Gordo).

E tem mais: abaixo de os “Dois Libanos”, na página 11, um rodapé de Moisés Rabinovici, o diretor de Redação, que conhece o assunto como poucos jornalistas brasileiros.

Pra terminar, o caderno Cultura é uma delicia.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

15/2/2008 12:23:16

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Por quê? (41) Telemarketing


Cláudio Amaral

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008, 10h18 da manhã.

E que manhã.

O dia está claro, ensolarado, bonito.

Mais bonito ainda porque eu consegui fazer minha caminhada pelas ruas da Aclimação, “o bairro mais agradável de São Paulo”.

Fui à farmácia buscar medicamentos para Be(bê)atriz.

Fui à padaria em busca de pães e mortadela.

Como eu gosto de pão com mortadela sem gordura.

Hum...

Bem, são 10h18 da manhã e o celular toda.

No visor, o número do escritório central da empresa para a qual presto serviços.

Atendo pensando na Carol, a recepcionista/telefonista da manhã, mas não é ela, não.

Ela apenas me transferiu uma ligação da dona de uma voz que transmite simpatia, muita simpatia.

A mulher, com voz de moça nova, mas madura, se identifica:

- É a Cris, do telemarketing do Jornal da Tarde.

Como eu também faço telemarketing dos meus serviços e produtos, como eu já fiz incontáveis cursos de operador de telemarketing, como eu sou educado e respeito todas as pessoas que trabalham porque precisam..., enfim, procurei ser simpático.

E a moça se aproveitou.

Elogiou minha “voz de locutor” e avançou o sinal: me pediu em casamento, de cara.

Educadamente, eu rejeitei.

Ela insistiu, dizendo:

- Você vai mudar de idéia quando ver (ou vir, moça?) os meus olhos verdes.

E por ai foi, sempre em frente.

E eu fui me desviando, me esquivando, tirando o corpo.

Até o momento em que ela pediu o meu endereço residencial.

Ai eu “apelei”.

Disse “não” e expliquei a razão:

- Eu não gosto do Jornal da Tarde. Meu jornal preferido, leitura diária, é o Estadão (perdão, Cláudia; eu gosto do JT, sim, mas, sinceramente, prefiro o Estadão; sempre preferi o Estadão; mesmo quando trabalhava na Folha, no JB e no Correio Brazilense).

Ainda assim, ou seja, quando eu disse “não gosto do Jornal da Tarde”, a operadora de telemarketing seguiu na tentativa de me “seduzir”.

Até quando eu disse a ela:

- Perdão, Cris. Mas não é desta vez que eu vou assinar o Jornal da Tarde.

Sabe você o que ela fez?

Fez mais uma tentativa de me convencer?

Me pediu novamente em casamento?

Me convidou para um café?

Me chamou para um chopinho?

Nada disso.

Ela desligou sem nem mesmo falar “adeus”.

Agora, 11h18 da mesma manhã, eu te pergunto:

- Pode?

- É assim que se faz telemarketing?

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

14/2/2008 11:19:48

Por quê? (40) Perdão

Cláudio Amaral

Eu sou uma pessoa de hábitos.

Ou manias, como preferem dizer algumas das pessoas que comigo convivem diariamente.

Por exemplo: todo dia, ao acordar, e depois de fazer as necessidades básicas, eu tenho por hábito (ou mania, como queiram) ligar este computador portátil no qual escrevo agora, às 10h14 do dia 12/2/2008.

Por quê?

Porque gosto de começar o dia sabendo quem escreveu pra mim e o quê cada um dos meus correspondentes eletrônicos tem para me dizer.

Outro exemplo?

Pois sim: entre as mensagens que recebo todo dia, religiosamente, vem uma das Paulinas.

É o Evangelho do Dia, que leio, sem falta.

Às vezes, logo pela manhã.

Às vezes, ao longo do dia, ou até mesmo à noite.

Hoje, li de imediato.

E lá estava:

O Pai Nosso

Mt 6,7-15

Nas suas orações, não fiquem repetindo o que vocês já disseram, como fazem os pagãos. Eles pensam que Deus os ouvirá porque fazem orações compridas. Não sejam como eles, pois, antes de vocês pedirem, o Pai de vocês já sabe o que vocês precisam. Portanto, orem assim:
"Pai nosso, que estás no céu, que todos reconheçam que o teu nome é santo. Venha o teu Reino. Que a tua vontade seja feita aqui na terra como é feita no céu! Dá-nos hoje o alimento que precisamos. Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam. E não deixes que sejamos tentados, mas livra-nos do mal. [Pois teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre. Amém!]"

Porque, se vocês perdoarem as pessoas que ofenderem vocês, o Pai de vocês, que está no céu, também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem essas pessoas, o Pai de vocês também não perdoará as ofensas de vocês. Por conta dessa passagem da Bíblia Sagrada, eu aproveito para dizer a todos que me lêem que, humildemente, e aproveitando a beleza desta manhã, eu lhes peço perdão.

Perdão, Amor, por não ter conseguido ser o marido, companheiro e amante ideal.

Perdão, meus filhos, por não ter me dedicado a vocês tanto quanto vocês queriam e precisavam.

Perdão, Be(bê)atriz por ser um vovô tão babão e bobão.

Perdão, meus pais e meus irmãos, por não ter podido estar sempre com vocês, especialmente nas horas em que mais precisavam de mim.

Perdão, meu sogro, minha sogra, meus cunhados, sobrinhos, compadres e afilhados pelos dissabores e decepções que eu possa ter feito vocês sentirem.

Perdão, meus patrões, chefes e companheiros de trabalho por nem sempre ter correspondido às suas expectativas.

Perdão, meus amigos, especialmente os Amigos (com A), por eu nem sempre estar à disposição de vocês, nem ao lado de vocês nas horas em que vocês mais precisaram de um Amigo.

Perdão, meus professores, do Primário, em Adamantina (SP), aos Mestrados, em São Paulo, por não ter me empenhado tanto quando vocês esperavam.

Perdão, meus colegas de classes, por não ter sido tão solidário quando eu deveria ter sido.

Perdão, meu Pai, por nunca ter conseguido ser o filho exemplar que Você gostaria que eu fosse.

A todos, humildemente, eu peço perdão, perdão, perdão...

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

12/2/2008 10:32:44

Por quê? (39) Adriana Moreira


Cláudio Amaral

Adriana Moreira, aqui retratada numa imagem que ela me enviou em agosto de 2007, foi uma das melhores Amiga (com A) que eu tive nestes meus 58 anos de vida e quase 40 anos de Jornalismo.

Era uma mulher formada quando a conheci, no Aeroporto dos Guararapes, em Recife.

Mas logo percebi que não passava de uma menina sapeca levada da breca.
Estava com um pé quebrado (o direito ou o esquerdo? não me lembro mais) e mesmo assim foi me recepcionar.

A mim e à Sueli, minha parceira desde julho de 1969, mãe dos meus filhos e avó da minha primeira e até agora única netinha, a Be(bê)atriz.

Eu havia sido convidado para dar uma palestra num seminário promovido pelo também jornalista Sérgio Xavier, no auditório da Federação das Indústrias de Pernambuco.

Passei três dias em Recife e, na seqüência, como pagamento pela palestra, cinco dias em Porto de Galinhas, no litoral pernambucano.

Eu e Sueli.

Foi uma viagem inesquecível.

Pela palestra, pela viagem a Porto de Galinhas e pela Adriana Moreira.

Daqueles dias em diante nunca mais nos perdemos.

Fomos outras vezes a Recife e sempre tivemos a companhia de nossa querida amiga Drika.

Numa dessas viagens, ficamos uma semana no apartamento dela, que fez questão de nos levar novamente a Porto de Galinhas.

Depois disso ela foi para Portugal fazer mestrado em Jornalismo pela Internet.

De lá, reclamou do frio, da distância da família e dos amigos.

Mas, jamais desistiu dos estudos e só voltou ao Brasil e a Recife quando nada mais tinha a fazer em Portugal.

Voltou no primeiro semestre de 2006 e foi fazer televisão na afiliada da Rede Globo em Petrolina, cidade em que morava (ou ainda mora) o pai dela, médico e especialista em Medicina do Trabalho.

Mesmo tendo o privilégio de aparecer todo dia na emissora líder de audiência na região, Drika estava feliz.

Reclamava de estar longe de um novo amor, um “ex-colega de escolinha”, que trabalhava em Salvador e para lá queria levá-la.

Pediu ajuda aos amigos e eu, particularmente, me empenhei junto a Antônio Martins, diretor de
A Tarde, para encontrar um emprego para ela na capital da Bahia.

No auge de toda movimentação para que a mudança se concretizasse, o noivado (sim, ela já estava noiva) acabou, por iniciativa dele, e ela entrou em crise.

De nada adiantou o apoio, o carinho, a força e as preces dos familiares e dos amigos.

Às 16h41 do dia 2 de abril de 2007, via correio eletrônico, os amigos de Drika receberam uma notícia-bomba.

O título era: “Luto por Adriana”.

E o texto trazia uma notícia que nos deixou chocados: “É com imenso pesar que comunico aos amigos de nossa querida e amada Adriana, que ela partiu neste sábado, prematuramente, de um enfarto fulminante... Ana Lúcia (mãe) e família”.

Até hoje, 10 de fevereiro de 2008, quase um ano depois, custo a acreditar que isto seja verdade.

Mais ainda quando, como hoje, me ponho a ler as últimas mensagens que dela recebi pela Internet.

Como escreveu dias atrás um dos meus filhos a um grande Amigo que temos no Rio de Janeiro, gente como você, Adriana, jamais deveria nos deixar.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

10/2/2008 22:47:54

Por quê? (38) Solidão


Cláudio Amaral

Às vezes é bom ficar só.

Às vezes.

Em geral, não.

A solidão é uma boa companhia.

Mas... às vezes.

Sempre, não.

Companhia boa, com certeza, é a dos Amigos.

Dos Amigos como a mulher que nos ama de verdade, dos filhos que nos admiram e respeitam, dos pais que têm orgulho de nós, dos irmãos que nos são solidários, dos colegas de trabalho que agem como nossos parceiros e dos estudantes que nos cercam nas salas de aulas, por exemplo.
Companhia boa, certamente, é a da mulher e dos filhos a quem amamos e admiramos, dos pais e dos irmãos a quem respeitamos, dos colegas aos quais podemos recorrer sem ter dúvida alguma (de caráter, por exemplo).

Companhia boa é a dos chefes que nos orientam e nos cobram, nos compreendem e nos apóiam.

Conclusão: ficar só é bom, mas... nem sempre.

Por quê?

Porque o ser humano não nasceu para viver só.

Eu, pelo menos, sou assim.

Gosto de companhia no café da manhã, no almoço, no café da tarde (sempre em torno das 16h30) e no jantar.

Gosto de companhia no trabalho, nos estádios (especialmente no Pacaembu, quando vou ver os jogos do Corinthians), no teatro, no cinema, nos shows do Sesc Vila Mariana e no Ibirapuera, nas sessões de ginástica e de hidroginástica.

Até para ver TV eu gosto de companhia.

Na sauna, também.

Mas, vez por outra, admito, é bom ficar só.

Em Campo Grande (MS), onde trabalhei por oito meses, eu curti dias e semanas de solidão. Curti mesmo. Na maior parte do tempo em que lá fiquei eu não me sentia na obrigação de ligar para casa e dizer que iria chegar mais tarde, que antes daria uma passadinha no shopping ou na Feirona (você conhece a Feirona de Campo Grande?), tomar um café ou (raridade) beber um chopp.

Em Franca (SP), onde fiquei outros 18 meses, era igual na maior parte do tempo. Saia tarde, bem tarde, da Redação do Comércio da Franca e podia ir sem aviso prévio ao Peixinho, ao Picanha, à Sapataria da Pizza, ao shopping, ao supermercado 24 horas ou tomar deliciosos caldos na Avenida Champagnat.

Em São Paulo, curtia ficar só na enorme Redação do Estadão. Sentia-me dono de tudo. Todos os telefonemas eram para mim e eu os atendia com satisfação indisfarçável. Mas, prazer maior eu tinha quando todas as mesas e cadeiras estavam ocupadas, porque eu me via entre gente importante: Oliveiros S. Ferreira, Carlos Conde, Eduardo Martins, Clóvis Rossi, Ricardo Kotscho, Luiz Roberto de Souza Queiroz, Fausto Silva... Falava com eles e a eles recorria sempre.

Na Redação da Folha de S. Paulo, também, porque lá convivi com Matinas Suzuki, Eleonora de Lucena, Melchiades Filho e Renata Lo Prete, Clovis Rossi (novamente) e Carlos Brickmann. Falava menos com estes, mas sabia que podia contar com a ajuda de todos.

De setembro a esta parte, vivo uma situação diferente. Tenho mais liberdade de ação, mais disponibilidade de tempo, trabalho boa parte do dia no meu escritório particular (em casa), posso dar atenção às minhas mulher e netinha Be(bê)atriz, aos meus filhos e aos meus parceiros de negócios.

Porém (sempre tem um porém), confesso que sinto falta das agitações das redações por onde passei (Estadão, Folha, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Imprensa Oficial, O Estado de MS, Comércio da Franca...), dos grandes escritórios, dos grandes plantões, dos bons parceiros (ainda que eles não fossem amigos) e até dos chatos.

Ficar só numa redação, num escritório, em casa ou num plantão é bom, às vezes é muito bom, mas nem sempre.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

8/2/2008 09:59:57

Por quê? (37) Vírgula


Cláudio Amaral

Exercendo a função de editor, em jornal ou em revista, sempre tive o maior cuidado com os títulos.

Para quem não sabe, fui editor no Jornal do Comércio de Marília (SP), no Diário do Povo de Campinas, na revista A Verdade, no Correio Braziliense, nos Diários Oficiais do Estado de São Paulo, n´O Estado de Mato Grosso do Sul e no Comércio da Franca.

Evitei a todo custo o uso de artigos nos títulos.

Palavras desnecessárias, nem pensar.

Nem nos títulos, nem nos textos.

Ou seja, encher lingüiça, como se diz na linguagem jornalística quando o repórter ou redator escreve além da conta, jamais.

Era, sou e sempre serei chato ao extremo em matéria de títulos e textos.

É por isso que fiquei indignado ao ler o caderno de esportes do Estadão na manhã desta quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008.

Por quê?

Quem leu o mesmo caderno sabe bem do que estou escrevendo.

No texto auxiliar da reportagem principal da capa do caderno, lemos: “O rebelde Léo Lima, outra novidade no time” (artigo e vírgula).

No rodapé: “O líder Guaratinguetá tem planos atrevidos” (o autor preferiu usar o artigo a utilizar mais uma vírgula, com a qual o título poderia ficar “Líder, Guaratinguetá...”).

No alto da página 2: “Acosta, arma da vez no Corinthians” (mais uma vírgula).

E outros três títulos da página têm vírgulas: “Para Mano, os grandes estão no mesmo barco”,
“Sem vencer há três rodadas, a Portuguesa pega o Paulista” e “Favorito, Noroeste viaja para enfrentar o lanterna Rio Preto”.

Na página 3, outros dois títulos com vírgulas: “Scolari e Capello, atrações de agitada Quarta-Feira de Cinzas” e “Luciano, o ‘anônimo’ campeão mundial”.

Na quarta e última página (ufa!), apenas um título com vírgula: “Na Turquia é mais fácil, explica Bobô”.

Em compensação, tomem artigos desnecessários: “Dunga deixa olímpicos de lado e escala ‘velhinhos’ contra a Irlanda” (por que não “...contra Irlanda”?) e “O estádio Croke Park já foi palco de massacre” (por que não “Estádio de Dublin foi palco de massacre no início do século” ou “Torcedores e jogador morreram no estádio”?).

Sei de longa data que é fácil criticar o jornal no dia seguinte, sentado à mesa do café, em casa, de cabeça fresca.

Mas, ao mesmo tempo, é impossível perder a oportunidade de analisar o caderno de esportes do Estadão numa edição tão confusa como a desta quarta-feira.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

7/2/2008 00:05:55

Por quê? (36) Marlene


Cláudio Amaral

Marlene dos Santos Piñol é uma velha e querida Amiga.

Amiga com A.

Nos conhecemos nos tempos em que ela, jornalista como eu, assessorava o presidente da VASP (lembram-se da VASP?), Flávio Musa.

Na época, anos 1970, ela se chamava apenas Marlene dos Santos.
Anos depois, quando trabalhava na Nossa Caixa, teve a felicidade de conhecer o designer Ricardo Piñol e logo eles juntaram as escovas de dente (não sem antes subir ao altar de uma igreja católica).

Juntaram as escovas de dente e tudo mais que uma mulher e um homem juntam quando querem se felizes juntos.

Marlene sempre teve uma vida difícil, em Cravinhos (onde nasceu, em abril de 1951, como o décimo filho de Aguida e Joaquim), em Osasco, em Brasília e em São Paulo.

E foi das dificuldades da vida que ela tirou forças para vencer.

E venceu.

Com as forças que reuniu ao longo da vida e muita fé em Deus.

E também com a educação e os exemplos que teve dos pais, a solidariedade dos irmãos e o apoio de amigos.

Com tudo isso, e muita determinação, Marlene se tornou uma vencedora, uma vitoriosa, uma mulher admirável e uma pessoa exemplar.

Sinceridade é uma das suas principais características.

Nem por isso ela é agressiva.

Diz sempre a verdade, mas jamais faz os seus interlocutores sofrerem.

Educou com firmeza, mas, ao mesmo tempo, muito amor e ternura, a lindíssima Ligia, que peguei no colo (mas isso foi há muitos anos, porque hoje ela é uma mulher bem maior do que eu).

Tem feito o mesmo com a segunda filha, Mariana.

E ambas amam de paixão tanto a mamãe Marlene quando o papai Piñol (é assim que o chamamos).

Por que eu escrevi tudo isso a respeito da minha Amiga Marlene?

Ah... porque... em primeiro lugar, porque Marlene sempre foi especial, solidária e presente nas horas mais difíceis, na alegria e na tristeza.

Segundo, porque acabo de encontrar na biblioteca aqui de casa um exemplar de Pessoas, escrito por Marlene e editado pela Arte Pau Brasil em 1986.

A dedicatória quase me fez chorar: “Para Cláudio e Sueli, meus amigos de todas as horas”.

É isso, mesmo, Marlene, somos e temos em você uma Amiga de todas as horas.

Em você e no Piñol, também, apesar da distância que separa São Paulo e Ribeirão Preto.

Abaixo da dedicatória de Marlene li uma outra prova do carinho e da importância que ela dedica aos Amigos: “Aos meus amigos, sem os quais a vida não teria sentido”.

Amiga de Vinicius de Moraes, o poetinha ou poeta maior, de quem ganhou manuscritos invendáveis e intransferíveis, Marlene fez poesia para os leitores da Revista LUI (1977), de Doomo Doomo (o primeiro livro, editado em 1980), em postais poéticos via Arte Pau Brasil, numa exposição no Spazio Pirandello, em São Paulo (com arte de Paulo Lima) e em textos escritos especialmente para revistas (Nova, por exemplo) e jornais (Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil, entre outros).

Relendo Pessoas neste fim de tarde e início de noite desta terça-feira de Carnaval, 5 de fevereiro de 2008, escolhi o seguinte rai-kai para mostrar Marlene para quem não a conhece: “Escrevendo me entrego. Não minto, nem nego”.

Ela é ou não é uma pessoa especial e uma poetisa de mão cheia?

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

13/2/2008 11:05:11

Por quê? (35) Sônia


Cláudio Amaral

Em junho de 2005, em Franca (SP), eu escrevi: “Conviver com a jornalista Sônia Machiavelli Corrêa Neves tem sido uma das melhores coisas destes três meses em que estou ministrando treinamento aos jornalistas do Comércio da Franca (SP)”.

Por quê?

Porque “ela é uma das pessoas mais cultas que conheço pessoalmente”, expliquei no texto da época.

E acrescentei: Sônia “é, além disso, elegante em todos os sentidos”.

E depois expliquei: ela “tem um texto sem igual, delicioso como um prato de comida, ainda que às vezes eu tenha que usar o dicionário para entender o significado de palavras usadas por ela”.

Por que estou a me lembrar dessas frases de um texto antigo?

Porque, embora antigo, ele é atual, está vivo, continua no ar e me trás ótimas recordações.

Tanto isso é verdade que hoje, terça-feira de Carnaval, 5 de fevereiro de 2008, aqui estou, às 7h50 da manhã, a reler este texto.

Um texto que reencontrei, graças aos sistemas de busca na Internet, no site do Master em Jornalismo para Editores http://www.masteremjornalismo.org.br/, editado por minha Amiga Mônica Paula.

Confesso que não me lembrava mais desse texto, como não me lembro de muitos textos que escrevi nos meus 58 anos de vida, 52 de trabalho ininterrupto e quase 40 anos de Jornalismo (pois comecei na profissão no dia 1º de maio de 1968).

Declaro, entretanto, que foi muito bom e prazeroso reler um texto que produzi a respeito de uma pessoa especial como a professora, jornalista e escritora Sônia Machiavelli Corrêa Neves.

Dela e do livro escrito e publicado por ela em 2005: Jantar na Acemira.

Cronista de mão cheia, Sônia teve o primeiro livro publicado em 2000: Uma bolsa grená, produzido em segredo, enquanto ela estava fora de Franca.

Nele estão 20 crônicas selecionadas pelo filho e também jornalista Corrêa Neves Júnior, que me levou para Franca em abril de 2005.

No mesmo texto de 2005 eu expliquei: “Comprei no Sebo da Jurema, ao lado da Catedral de Franca, um exemplar de Uma bolsa grená. Sem explicação, comecei a ler pela última crônica, Comer e escrever. Fiquei encantado, mais uma vez, com a facilidade que Dona Sônia, como a chamamos, respeitosamente, na Redação do Comércio, tem no trato com as palavras, frases e idéias”.

“É por isso”, disse na época e repito agora, “que os convido a ler essa que é uma das 20 crônicas reunidas em Uma bolsa grená".

Hoje, mais de dois anos e meio passados desde que me manifestei publicamente pela primeira vez a respeito de Sônia Machiavelli Corrêa Neves, convido a todos que me lêem a conhecerem também a vida e as obras de uma escritora que deveria estar em todas as livrarias do Brasil, mas que, infelizmente, está por ser descoberta pelas nossas maiores editoras.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

5/2/2008 07:39:23

Por quê? (34) Franca


Cláudio Amaral

Parece perseguição, mas não passa uma semana sem que eu esbarre em algo que me lembre os meus 18 meses em Franca (SP).

Quando eu trabalhava num escritório da Rua Estados Unidos, ano passado, pegava o ramal Paulista do Metrô, saia na estação Brigadeiro, descia a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio e, obrigatoriamente, cruzava a Alameda Franca.

Semana passada, precisando de uma informação importante, liguei para um conhecido e ele me atendeu dizendo estar em... Franca.

Ontem, 30/1/2008, voltei a fazer contato com a mesma pessoa e ele me disse para procurar um executivo do Magazine Luiza, em... Franca.

À noite, vendo o jogo Sertãozinho 0 X Corinthians 0, não deu outra: em meio aos torcedores do Timão apareceu uma faixa em que se lia: “Fiel Franca”.

Mais: nas camisas dos jogadores do Sertãozinho aparecia a marca de um supermercado que tinha (e ainda deve ter) lojas em... Franca.

Fui para Franca no dia 3 de abril de 2005 para trabalhar por um mês na Redação do Comércio da Franca, o maior jornal da região.

Quinze dias depois me pediram para ficar mais um mês.

Antes que o primeiro mês terminasse, novo pedido: “Fique até o aniversario do jornal, em julho”.
Acabei completando um ano e meio em Franca.

Foi um período de muitas alegrias.

Uma fase muito produtiva.

Sim, eu sentia a falta da família, embora minha mulher estivesse sempre por lá.

Sentia imensa saudade dos filhos, dos amigos que em São Paulo deixei, da minha casa, da minha rua, do meu bairro e da minha cidade.

Quando o Corinthians jogava no Pacaembu, era líquido e certo: eu reclamava da distancia.

Desejava, sempre, estar em São Paulo, no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho e em meio à grande nação corintiana.

Para compensar, fui algumas vezes ao Lanchão, o Estádio Lancha Filho, ver jogos da Francana, mas desisti: o time era tão ruim, mas tão ruim, que dava vontade de chorar de raiva.

E ai a saudade do Corinthians aumentava.

Hoje, cada vez que algo me faz lembrar de Franca, acontece o contrário: eu sinto falta da Praça Barão, do Senhor Café e do café da Cidinha, do Restaurante Barão e das cortesias do Pio e do Degran, das celebrações na Catedral (sempre cheia de fiéis), do Franca Inn Apart Hotel e do café do Nei, das noitadas entre amigos no Copo Sujo, das pizzas da Sapataria, das conversas no Galo Branco, dos passeios no Franca Shopping, das sessões de hidroginásticas na piscina da Mergulho e dos jogos de basquete no ginásio do Pedrocão.

Mas isso não é tudo.

Sinto falta, e como sinto, das jornadas diárias e das viradas de noite na Redação do Comércio da Franca e de todos os profissionais com quem lá convivi.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral
clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

31/1/2008 00:38:08

Por quê? (33) Voluntários


Cláudio Amaral

Maria da Glória Simões Oliveira, a Glória, é uma pessoa especial.

Muito especial.

Mineira, católica fervorosa, ex-funcionária do Banco do Brasil, ela é a idealizadora, a criadora e a principal dirigente da Associação Projeto Novo Milênio.

Glória está à frente dessa ONG desde 1991, quando decidiu que era preciso dar apoio e formação a pessoas que desejam entrar no mercado de trabalho.

A esse tipo de gente e também a aqueles que desejam crescer na profissão mas são ou estão carentes de treinamento.

Muito bem instalada num sobrado da Rua Machado de Assis, 702, na Aclimação, a ONG de Glória ministra cursos de Matemática, Português, Inglês, Informática, Espanhol, etc.

Todas as aulas são dadas por voluntários arregimentados por Glória.

Ela própria ministrou aulas no Projeto Novo Milênio.

Especialmente em 2007, quando os voluntários foram escasseando.

Por quê?

Porque mudaram de cidade, porque tiveram que assumir novos compromissos, porque o projeto pessoal de cada um incluía passar um ano em cada ONG, porque se casaram, porque, porque, porque.

A verdade, nua e crua, é que Glória está recrutando novos voluntários.

Colaboradores e doadores, também.

Mas principalmente voluntários.

O tempo que cada um tem para dar ao Projeto Novo Milênio não vem ao caso.

Pode ser até duas horas por semana.

Pode ser pela manhã ou à tarde ou à noite.

O importante é dar uma força, uma mão, que seja.

O importante é aliviar a carga que pesa sobre os ombros de Glória.

Mais importante ainda é que cada um faça a sua parte.

Até porque ser voluntário está na moda, faz a diferença quando cada um de nós participar de uma entrevista em busca de um novo emprego ou de uma promoção na empresa, organização ou instituição em que trabalha.

Depois, e mais importante, vem o fato de que ser voluntário faz bem a todos.

Especialmente a quem já aprendeu que dar um pouco de si aos nossos semelhantes é importante, gratificante, reconforta, anima e nos faz sentir útil.

E você quer algo mais gratificante do se sentir útil a quem precisa de ajuda, apoio, incentivo?

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

29/1/2008 15:55:54

Por quê? (32) Emoção


Cláudio Amaral

Uma figura nem um pouco inusitada – ou seja, normal para os padrões da vidinha que nós levamos aqui na metrópole – me contou que a figura no mínimo inusitada foi vista noite dessas no Memorial da América Latina.

Para quem não leu minhas crônicas de 9 e 26/1/2008 é preciso explicar que uma figura no mínimo inusitada tem perambulado pelas ruas, lojas, centros comerciais, ônibus, estações e trens do Metrô de São Paulo.

No dia 9, foi vista lá pelos lados da Igreja de São Judas Tadeu e do Aeroporto de Congonhas. Às vezes de ônibus, outras de Metrô e também andando a pé.

No dia 26, na Avenida Altino Arantes e na Rua Mário Amaral, respectivamente na Vila Clementino e no Paraíso.

Na noite de 25/1/2008, data do aniversário de 454 anos de São Paulo, a cidade, a figura no mínimo inusitada acompanhou a abertura da exposição de fotos instalada no Memorial da América Latina, onde aparecem, entre outras, as imagens que deram o Premio Esso a Tiago Brandão, repórter do jornal Comércio da Franca (SP).

Em trajes formais, ela, a figura no mínimo inusitada, chegou só, mas foi embora muito bem acompanhada.

Falou pelos cotovelos.

Mostrou-se interessada em cada uma das imagens da Retrospectiva 2007 promovida pela Arfoc, a Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo.

Observou que a primeira e a última fotografia homenageavam dois cidadãos de um mesmo nome: Paulo.

Não! Paulo Maluf, não!

O primeiro, recentemente falecido, era Paulo César Bravos, repórter fotográfico do Diário de S. Paulo, nascido em Marília (SP) e cidadão do mundo.

O segundo, falecido ano passado, exatamente no dia 12/10/2007, o ator Paulo Autran, um dos maiores nomes do teatro brasileiro em todos os tempos.

Bravos é mostrado em ação, como, aliás, sempre estava quando empunhava uma máquina fotográfica.

Na Retrospectiva 2007, da Arfoc, ele pode ser visto até o dia 14/2/2008, em meio aos bombeiros que combatiam o fogo numa favela da Capital.

Autran, por sua vez, está retratado na sua última aparição pública, no palco do Theatro Municipal de São Paulo.

Ele aparece com as duas mãos na boca, mandando um beijo para a platéia.

Foi o beijo da despedida.

O beijo da alegria, da felicidade, da realização, porque Paulo Autran estava alegre, feliz e realizado naquela ocasião, embora sofresse com o mal que o levou do nosso meio.

A foto de Autran é exatamente a 80ª da exposição.

Dela, a figura no mínimo inusitada voltou, uma a uma, até parar na primeira, novamente.

Deteve-se e leu dois textos ali estampados: um de apresentação da mostra, outro em homenagem a Paulo César Bravos.

Leu e releu.

Calada, a figura no mínimo inusitada se emocionou.

Quase foi às lagrimas.

Até parece que conheceu de perto o homenageado, o marido de Marilena Torres Bravos, o pai de Vanessa, Thais e Renata, o filho do saudoso José Arnaldo e da vivíssima Dona Cidinha.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

26/1/2008 15:58:40

Por quê? (31) O vidro


Cláudio Amaral

A figura no mínimo inusitada a que me referi na crônica do dia 9/1/2008 foi vista novamente na manhã deste sábado, 26/1/2008.

Primeiro, na Avenida Altino Arantes, quase esquina com a Rua Domingos de Moraes, na Vila Clementino, zona sul da Capital paulista.

Depois, na Rua Mário Amaral, no Paraíso.

De carro – sim, desta vez ela, a figura, estava motorizada –, chegou antes das 9 horas junto ao Colégio Nossa Senhora do Rosário, na Altino Arantes.

Chegou e estacionou na diagonal um Fit Honda com pouco mais de 2.000 quilômetros rodados.

Cinza, bonito, ainda que meio sujo, o automóvel chamou a atenção de uma mulher de olhos puxados.

“Seu carro está novo”, disse ela, a oriental.

“Quem me dera ter um carro assim”, respondeu a figura.

A mulher recolheu o sorriso e foi em frente.

Certamente, pensara: “Se não é seu, de quem é? Você o roubou? De quem? Onde?”

Se pensou, não falou.

Não falou por precaução? Por medo? Por timidez?

Quem sabe.

O certo é que a figura no mínimo inusitada nada percebeu e 40 minutos depois foi embora no Fit.

Subiu a Altino Arantes, entrou à esquerda na Domingos de Moraes, na continuação rodou a Rua (ex-estrada do senador) Vergueiro, passou sobre o Viaduto Santa Generosa, fez a volta logo após o Shopping Paulista e desceu a Rafael de Barros até a Mário Amaral.

Depois de entrar à esquerda na Mário Amaral, estacionou em frente ao prédio em construção no número 432.

Lá, procurou o vigia e pediu para ver o apê à venda.

“É o 21”, disse o rapaz, de nome José Ailton.

“Pode subir e ver”, acrescentou uma figura de baixa estatura, chinelo de dedos, calça curta e camiseta de quem não se assusta mais com o frio de São Paulo, embora tenha vindo lá de cima, ou seja, dum daqueles estados quentes do norte ou do nordeste.

Apartamento visto, a figura no mínimo inusitada desceu, pisou a calçada novamente e lá ficou, como se estivesse a esperar alguém.

Nisso, dois homens, pai e filho, saíram do prédio da frente carregando um vidro de dois metros de comprimento por um metro de largura.

Iriam levar o objeto transparente para o interior de uma Kobim branca, de placas CIV 4828.

Mas, com as quatro mãos ocupadas com o vidro, grande e pesado, eles não conseguiam abrir a porta do veículo.

Ai a figura não teve dúvida: entrou logo em ação e, como gosta de fazer sempre, se ofereceu para ajudar.

Pai e filho sorriram, aceitaram a ajuda e depois o velho, que não é tão velho assim, disse “obrigado” e acrescentou: “Deus lhe pague”.

Educada, católica praticante e temente a Deus, a figura devolveu o sorriso e respondeu: “Amem”.

Isto posto, virou sobre os sapatos comprados em Franca (SP), entrou no Fit e foi embora, feliz da vida.

Havia ganhado o dia.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

26/1/2008 14:43:43

Por quê? (30) São Paulo


Cláudio Amaral

Há tempo, muito tempo, eu não escrevo a respeito do meu amor por São Paulo, a cidade.

Falar, sim, eu falo sempre que posso e tenho oportunidade.

Mas, escrever e descrever o meu amor por São Paulo, preto no branco, tenho feito pouco.

A última vez, lembro-me bem, foi há pelo menos cinco anos, num artigo para o site da Aclimação, “o bairro mais agradável de São Paulo”.

São Paulo, todos sabemos, tem um monte de defeitos.

Gente em excesso, por exemplo. E, por conseqüência, casas e prédios, automóveis, caminhões e ônibus, congestionamentos, acidentes, assaltos, roubos, lixo nas vias públicas, etc.

Tudo em São Paulo é grande e os exemplos são muitos.

Mas, um, apenas um, dá a idéia da grandeza desta metrópole, a quarta maior do mundo: um milhão e 300 mil veículos saíram da Capital paulista nesses dias, exatamente porque é feriado em São Paulo nesta sexta-feira, data da fundação da cidade.

Outro exemplo: 400 mil veículos irão para o litoral, ou seja, levarão algo em torno de dois milhões de pessoas para as nossas praias.

Entretanto, para compensar, quem vive em São Paulo ou para aqui vem a passeio ou a negócio, tem tudo à mão.

Tudo.

Aqui temos lojas e centros de compras de todos os tipos e tamanhos.

Aqui temos ruas inteiras especializadas em produtos e serviços: a Santa Efigênia para os eletroeletrônicos, a São Caetano para as noivas e a Teodoro Sampaio para os móveis, só para citar alguns exemplos.

Aqui são lançadas com prioridade as mais novas produções do cinema, do teatro, da música e das demais artes.

Os melhores e mais famosos museus do País estão aqui.

Aqui temos as melhores escolas e os melhores times de futebol, incluindo o meu Corinthians.

Tem também o Palmeiras, a Portuguesa, o Juventus, o Nacional e o SPFC, três vezes ganhador da Copa Toyota, no Japão, quatro vezes campeão do Brasileirão e muito mais.

Aqui tem samba, também.

Não o melhor samba do Brasil, que está no Rio de Janeiro.

Mas, as escolas de samba de São Paulo são boas e famosas.

Inclusive a minha Gaviões da Fiel.

Digo e sustento sempre: só não gosta de São Paulo quem não a conhece.

Conheço gente de outras cidades que morre de medo de vir até aqui.

Quem vem, entretanto, dificilmente volta.

Morei aqui quando criança, fui embora em 1958 por decisão de meu pai e voltei em 1971 para nunca mais ir daqui.

Sim, estive em Campo Grande por oito meses, em 2004 e 2005; depois, em Franca (SP) por 18 meses, em 2005 e 2006, mas jamais deixei de ter residência fixa em São Paulo.

Jamais deixei de amar a cidade de São Paulo.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

25/1/2008 12:22:45

Por quê? (29) Novelas


Cláudio Amaral

Ainda vai demorar muito tempo para que as novelas sejam aceitas abertamente em todos os círculos e camadas sociais.

Apesar da qualidade apresentada pelas novelas da Rede Globo de Televisão, por exemplo, muitos intelectuais, profissionais liberais, executivos, empresários, entre outros, insistem em dizer que não assistem e não gostam de novelas.

Eu também tenho restrições às novelas.

Muitas restrições.

Mas, eu vejo novela e admito isso publicamente.

Não. Eu não vejo todas as novelas.

Vejo, sim, novelas da Globo.

Assisto à novela das 8.

Aquela que a Globo insiste em começar às 9 da noite.

Mas não vejo todas as novelas das 8.

A atual, sim.

A anterior, por exemplo, não.

Em geral, faço assim: vejo uma e a outra, não.

Quando assisto a uma novela, como Duas caras, que está no ar no horário nobre da televisão brasileira, presto atenção no texto (que é o meu negócio), na interpretação de cada ator e atriz (porque fiz teatro na escola do Nilton Travesso, aqui em São Paulo, e me encantei com as artes cênicas) e nas mensagens que autor tenta nos passar.

Um exemplo: de uns tempos para cá, a Globo usa as novelas para divulgar com insistência a importância de doarmos sangue, medula óssea e órgãos do corpo humano; de evitarmos o racismo e outros tipos de descriminações, o álcool e as drogas; de nos prevenirmos contra a dengue, etc.

O que mais tem me chamado a atenção em Duas caras, entretanto, é o comportamento antagônico dos personagens interpretados por José Wilker (professor Francisco Macieira) e Paulo Goulart (professor Eriberto).

Um é progressista, inovador, criativo, quer o bem de todos, pensa sempre no outro, tem determinação pela educação para todos.

O outro é retrógrado, individualista, ambicioso, maldoso, fofoqueiro e age como se, nas entrelinhas, pedisse para o mundo acabar em barranco.

Por quê?

Porque gostaria de morrer encostado, de mãos nos bolsos, recebendo comida e bebida na boca.

Um, porque pensa no futuro.

No futuro do País e do ser humano.

O outro, porque só pensa em si, no aumento de salário que poderá ter (embora não mereça), no poder que teria como reitor da Universidade Pessoa de Moraes.

O progressista, ex-revolucionário ao estilo do hoje deputado federal Fernando Gabeira, tem gosto duvidoso no vestir, mas apurado para escolher a cidade onde viver, a mulher com quem se relaciona e o vinho a ser bebido.

O retrógrado, que sempre bajulou os poderosos, se veste bem, mas só, nada mais.

Foi sincero, ao longo de meses de novela, apenas uma vez.

Foi quando disse, com clareza, o que pensa das idéias do colega que ocupa o cargo que ele tanto ambiciona, ou seja, o de reitor da Universidade Pessoa de Moraes:

- Eu sou contra mudanças. Eu sou contra toda e qualquer mudança.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

22/1/2008 13:49:42

Por quê? (28) Irmão


Cláudio Amaral

Nunca imaginei que sepultar um irmão fosse tão dolorido.

E olha que eu já sofri as dores de quem sepulta um filho recém nascido, Cássio Fernando, há 32 anos; o pai, Lázaro Alves do Amaral, há mais de 20 anos; duas avós, Celeste, a paterna, e Durvalina, a materna; um avô, Zéca Ferreira, o materno; um tio muito querido, Walter Guido; um sogro de respeito, José Arnaldo; amigos e, recentemente, um cunhado muito próximo, o repórter-fotográfico Paulo César Bravos.

Mas, sepultar um irmão, o único, foi de doer fundo e forte no peito.

Clówis Francisco do Amaral, o único irmão que ‘seu’ Lazinho e dona Wanda me deram, tinha 54 anos e nasceu em Adamantina (SP), como eu e minhas irmãs Cleide e Clélia.

Ele morava em Uberaba (MG) com a segunda mulher, Bete, a filha Samantha, o enteado Rodrigo, o filho mais velho, Fernando, a nora e a netinha Clara, de apenas nove meses.

Era torcedor do Santos FC, representante comercial e sócio de uma empresa distribuidora de cigarros.

Ano passado, quase nos deixou sem aviso prévio, por conta de um ataque do coração.

Socorrido prontamente e muito bem atendido lá mesmo em Uberaba, foi operado, recebeu pontes de safena e mamária, recuperou-se plenamente e voltou a trabalhar e a viajar pelo interior de Minas Gerais.

E foi na viagem da semana passada, retornando para casa, após uma semana de ausência, que Clówis nos deixou repentinamente.

O veículo que ele dirigia se chocou com outro, que trafegava em sentido contrário, por volta das 17 horas de quinta-feira, dia 17 de janeiro de 2008, quando faltavam apenas 35 quilômetros para meu irmão reencontrar a família, em Uberaba.

A colisão foi tão violenta que ele teve traumatismo craniano e morte instantânea.

O velório aconteceu na residência da família, no tradicional bairro da Abadia, um dos mais conhecidos de Uberaba.

Bem vestido, graças a um terno azul claro do qual ele gostava muito, a uma camisa branca e a uma gravata muito bem escolhida, meu irmão foi velado por centenas de parentes, amigos e conhecidos.

A maioria levou o último adeus a Clówis Francisco do Amaral também junto à sepultura 144 da quadra Z do novo cemitério de Uberaba.

E ele foi para a última morada com um semblante sereno e um leve sorriso nos lábios.

Mais que isso, Clówis levou com ele o amor, o carinho, o respeito e a admiração da família, dos amigos e dos colaboradores.

E conosco deixou as boas lembranças de uma vida de luta, sofrimentos e muitas vitórias, vividas e conquistadas em Adamantina, em Marília, em São Paulo, em Bauru e por último em Uberaba.

Deixou também as lágrimas e a dor da perda, porque, embora saibamos que ele seguiu desta para uma vida melhor, foi impossível vê-lo partir sem chorar e sem sentir algo muito dolorido no peito.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

19/1/2008 16:56:29

Por quê? (27) Virtude?

Cláudio Amaral

O elo de ligação a que me referi no texto anterior, escrito às 12:56:38 de 15/1/2008, não é o único vicio de linguagem comum do dia-a-dia da nossa língua portuguesa.

Um outro termo inadequadamente empregado pela maioria dos lusos falantes é virtude.

Assistindo pela televisão ao jogo disputado na noite desta quinta-feira, 17/1/2008, no estádio do Morumbi, em São Paulo, que marcou a estréia do Corinthians (3) e do Guarani de Campinas (0), no Paulistão 2008, registrei mais uma vez o mau uso da palavra virtude.

“Em virtude da derrota do Santos diante da Portuguesa, ontem à noite, no Morumbi, por 2 a 0...”, disse um narrador de TV.

Pobre coitado.

Desde quando, Júnior, derrota é virtude?

Não é, nunca foi, nem nunca será.

A vitória da Portuguesa sobre o Santos, sim, foi uma virtude.

Derrota jamais poderá ser qualificada como virtude.

Jamais!

O mesmo se pode dizer a muitos dos repórteres de rádio da Capital paulista.

Eles insistem em dizer, nestes dias de verão:

- Em virtude das enchentes registradas na tarde de hoje, em São Paulo...

Infelizes!

Os profissionais de rádio e televisão insistem em cometer um outro tipo de erro muito criticado pelo Professor Pasquale Cipro Neto:

- Agora, o jeito é correr atrás do prejuízo.

Ah, ah, ah, ah...

Toda vez que ouço essa expressão, eu me pergunto:

- Será que eles, os locutores, têm por habito, correr atrás do prejuízo?

Será?

Assim como o Professor Pasquale, eu prefiro correr atrás do lucro.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

17/1/2008 23:41:00

Por quê? (26) Elo de ligação


Cláudio Amaral

- O meu sogro não escreveria assim.

Disse essa frase de imediato, sem pensar, ao ouvir a personagem Silvia, namorada de Marcone Ferraço, perguntar a ele, segunda-feira à noite, durante uma passagem da novela Duas Caras, produzida e exibida pela Rede Globo no horário mais nobre da televisão brasileira:

- Você quer que eu seja o elo de ligação entre você e o seu filho Renato?

“Não mesmo”, acrescentou minha mulher, sentada ao meu lado, no sofá da sala de casa.

“O que é?”, perguntou minha sogra.

E Sueli explicou à mãe dela:

- O Cláudio disse que o papai jamais escreveria ‘elo de ligação’, como escreveu o autor de Duas Caras.

José Arnaldo, o meu sogro, que infelizmente já não está mais entre nós, foi Jornalista, com J, por mais de 50 anos.

Nascido José Padilla Bravos, ele assinou a coluna De Antena e Binóculos, no extinto Correio de Marília, ao longo de 40 anos.

Conhecia e cultuava a nossa língua portuguesa como poucos.

Esbravejava, e como esbravejava, com quem escrevia errado.

Mas, ao mesmo tempo, tinha paciência suficiente para explicar o que estava errado e como era o certo.

Se aqui estivesse, José Arnaldo pularia no ato do sofá ou da cadeira, caso ouvisse a maldosa Silvia perguntar ao canalha do Ferraço:

- ...elo de ligação...?

A sorte dele é que José Arnaldo quase não via televisão.

Novela?

Nem pensar.

Ele tinha horror a novelas.

Incomodado com a frase criada pela mente do autor de Duas Caras, fui em seguida a um dos muitos livros do Professor Pasquale Cipro Neto e lá estava a confirmação do erro.

“Elo”, segundo Pasquale, “o professor de português mais famoso do Brasil”, segundo a revista Veja, significa “ligação, união”.

Isto posto, caro autor de Duas Caras, você não precisaria ter escrito “elo de ligação”.

Não precisaria e não deveria.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

15/1/2008 12:56:38

Por quê? (25) Dia 13


Cláudio Amaral

A maioria das pessoas torce o nariz para o número 13.

Menos o ex-jogador e treinador de futebol Mário Jorge Lobo, o Zagalo.

Ele sempre referenciou o 13.

Fez dele o número da sorte.

E, pelo sim, pelo não, teve e tem muita sorte na vida.

Na vida pessoal e na vida profissional.

Tem uma família exemplar e muitos, muitos títulos como atleta e comandante de atletas.

Eu também gosto do 13.

Um pouco menos do que Zagalo, mas gosto, sim.

Se alguém me pergunta qual é o meu número preferido, digo no ato:

- O 13.

Por quê?

Sei não.

Desde quando?

Sei menos ainda.

Só sei que o dia 13, como hoje, 13 de janeiro de 2008, me faz acordar bem disposto.

Por quê?

Faltam-me palavras para explicar.

Essa é a mais pura verdade.

Tenho explicações para inúmeras questões, casos e situações.

Para o meu amor pelo Corinthians, por exemplo.

Para a minha paixão pela cidade de São Paulo, também.

Para o meu gosto pelo futebol.

Para a minha vibração pela Fórmula 1.

Para a minha incalculável disposição para o trabalho.

Para a minha dedicação ao Jornalismo.

Mas, pela simpatia pelo número 13...

Por mais que eu busque uma explicação, não a encontro.

Do meu número na escola, por exemplo, eu não tenho a mais vaga idéia.

A idade da minha primeira namorada?

Sei não.

Afinal, faz tanto tempo...

Sei, e ponto final, que o número 13 me é simpático, o preferido.

Tive um carro, entre muitos, cuja placa era 1377.

Gostei dele.

Do carro e do número da placa.

O carro era bom, seguro, tinha potência e estabilidade.

A placa me era simpática.

E você?

Qual é o seu número preferido?

Por quê?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

13/1/2008 10:55:12

Por quê? (24) Diferenças


Cláudio Amaral

Duas situações completamente diferentes vão marcar este meu sábado.

De um lado, Beatriz do Amaral Gouvêa.

Do outro, Paulo César Bravos.

Alegria e tristeza.

Mais alegria do que tristeza.

Repórter fotográfico, sambista, ciclista, petista, são-paulino, 57 anos, Paulo César Bravos nos deixou há uma semana.

Por conseqüência, os católicos praticantes, e outros nem tanto, vamos nos reunir a partir das 17 horas, na Igreja da Consolação, para rezar pela alma dele e relembrar tudo o que nos for possível.

Lá estarão os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, os ciclistas que com ele pedalavam pelas inseguras e esburacadas vias públicas de São Paulo.

Lá estarão até mesmo pessoas que não o conheceram, mas que se encantaram com a trajetória – pessoal, profissional e familiar – de Paulo César Bravos.

Será, sem dúvida, um acontecimento marcado pela emoção e, por conseqüência, pelas lágrimas, ranger de dentes, abraços apertados e lembranças.

Afinal, Paulo César Bravos passou pela vida de forma marcante, agitada, emocionada, vibrante, polêmica.

Antes e após a missa, vamos curtir, alegremente, o fato de uma nova vida ter surgido há sete meses.

É que há sete meses, no dia 12 de junho de 2007, os integrantes das famílias Amaral, Gouvêa, Bravos, Torres, Philipson e outras tantas nos alegramos com a chegada da pequena Beatriz do Amaral Gouvêa.

Paulo César Bravos, tio-avô da nova cidadã paulistana, estava suficientemente vivo e forte para também se alegrar com a chegada dela.

Infelizmente, ele não teve tempo para fazer com ela as fotos que fizera com a mãe dela, há 34 anos.

E esse será um motivo a mais para sempre nos lembrarmos de Paulo César Bravos – “um guerreiro”, como escreveu Thaís Torres Bravos, a filha do meio – com saudade e tristeza.

Ao mesmo tempo, entretanto, a cada dia 12 comemoraremos com muita alegria o aniversário de Beatriz.

Seja aniversário de mês, seja de ano.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

11/1/2008 12:30:28

Por quê? (23) Figura


Cláudio Amaral

Uma figura no mínimo inusitada circula pelas ruas, lojas, centros comerciais, ônibus, estações e trens do Metrô de São Paulo.

Na manhã de hoje, quarta-feira, dia 9 de janeiro de 2008, ela, a figura, circulou entre a região central e a zona sul da Capital paulista.

Saiu não se sabe de onde e entrou no Metrô pela estação Sé.

Passou pela roleta, disse “bom dia” aos funcionários que cuidavam da segurança e ficou pelo menos 30 minutos na plataforma.

A circulação de trens estava anormal, “lenta”, segundo os operadores da linha norte-sul.

Paciente, ela, a figura, de nada reclamou.

Estava atrasada para entrar em serviço, mas se limitou a olhar uma vez, apenas uma, para o relógio: 10h15.

Depois de conferir a hora no Bulova prateado que levava ao pulso, ela, a figura, olhou para uma senhora impaciente ao seu lado direito e balbuciou, entre dentes:

- Eu deveria estar no trabalho há pelo menos 75 minutos.

Nem por isso se apressou a entrar no trem.

Entrou quando foi possível, se apertou entre os demais passageiros e logo conseguiu um lugar para se sentar.

Evitou sentar no primeiro lugar que vagou pelo simples fato de que ali ela, a figura, viajaria de costas.

Assim que vagou um lugar que a permitisse ir para frente, no sentido Jabaquara, ela, a figura, se apressou.

Antes, entretanto, perguntou a duas jovens que estavam mais perto do banco vago:

- Posso me sentar aqui?

Como ambas disseram “sim”, a figura se acomodou, sorriu para o passageiro do lado direito e se manifestou:

- Bom dia.

Uma senhora se sentou na frente, no banco seguinte, e também ganhou uma saudação:

- Bom dia.

Nem o passageiro da direita, nem a mulher do banco da frente responderam.

Ainda assim, ela, a figura, sorriu para ambos.

Sorriu e falou com os dois.

Repetiu o “bom dia” quando o passageiro do lado direito se levantou para desembarcar na estação Vila Mariana e para a mulher do banco da frente quando ela, a figura, se dirigiu à plataforma da estação São Judas.

Para espanto geral, a figura no mínimo inusitada disse um “bom dia” geral para as pessoas que esperavam ônibus em frente à Escola Estadual de Primeiro Grau Almirante Barroso, na Avenida Jabaquara, sentido Aeroporto de Congonhas, logo após as igrejas de São Judas Tadeu.

“Bom dia” ela, a figura, desejou também ao motorista e ao cobrador do ônibus 62.518, que trafegava em direção ao “Aeroporto, via Aratãs”.

No ônibus, cumprimentou também duas jovens vestidas ao estilo das aeromoças, uma moreninha e uma branquinha, que levava aliança num dedo da mão direita.

Teve vontade, mas faltou-lhe coragem para perguntar se a moça estava noivando ou namorando.

Mas teve coragem suficiente para dar um aviso a ela:

- Sua bolsa está aberta.

Ganhou um sorriso e um “muito obrigada”.

Foi o suficiente para ela, a figura, pensar “ganhei o dia” e descer feliz no segundo ponto após o aeroporto, junto a um hiper-mercado.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

9/1/2008 11:34:12