quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Por quê? (126) Adeus, Lourenço Diaféria


Cláudio Amaral

Perdi mais um Amigo.

Lourenço Diaféria (foto), o cronista de São Paulo, nos deixou na noite de terça-feira, dia 16 de setembro de 2008.

Fizemos parte da turma que heroicamente elegeu Emir Nogueira presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo.

Ficamos anos sem nos ver, nem nos falar, depois da morte de Emir Nogueira em pleno exercício do mandato.

Fui reapresentado a ele em meados dos anos 1980 pelo também Amigo e jornalista Daniel Pereira.

Daniel, o “Sogrão”, foi buscar Diaféria na Secretaria Estadual da Fazenda, onde ele era funcionário de carreira.

Fizemos uma proposta e ele aceitou na hora.

Aceitou e cumpriu plena e integralmente, do primeiro ao último dia.

Diaféria escrevia três crônicas por semana e nós, Daniel Pereira e eu, comercializávamos os textos de autoria dele junto a jornais e revistas de todo o Brasil, via COMUNIC Comunicadores Associados.

As crônicas de Diaféria eram tão interessantes que os mensageiros da COMUNIC disputavam, quase a tapas, o privilégio de ir até a casa dele, o cronista, na Lapa.

Na volta, o mensageiro vinha lendo e se deliciando com as histórias contadas por Diaféria.

Eram crônicas do cotidiano, a respeito de gente simples.

Aliás, simplicidade era uma das principais características de Lourenço Diaféria.

Esse era o segredo do sucesso que ele fez por todos os veículos pelos quais passou: Folha da Manhã, Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABC, rádios Excelsior, Gazeta, Record e Bandeirantes, e, por fim, TV Globo.

Diaféria escrevia com facilidade. Era rápido e engraçado.

Jamais fez uma crônica ofensiva a quem-quer-que seja.

Nem mesmo quando escreveu uma crônica de exaltação ao heroísmo do bombeiro que pulou a grade que cercava uma fera para salvar uma vida humana.

Quem entendeu que Herói. Morto. Nós., publicada na edição de 1º de setembro de 1977 da Folha de S. Paulo, era ofensiva às Forças Armadas não tinha inteligência suficiente para entender as crônicas de Lourenço Diaféria.

Crônicas que exaltavam e respeitavam os seres humanos, os brasileiros, gente simples, gente do povo.

Crônicas como esta, que fazemos questão de republicar:

Herói. Morto. Nós.

Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos. O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra. Que nome devo dar a esse homem? Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor. Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências. O herói redime a humanidade à deriva. Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major. Está morto. Um belíssimo sargento morto. E todavia. Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar. O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos. No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos. Esse sargento não é do grupo do cambalacho. Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais. É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa. O povo prefere esses heróis: de carne e sangue. Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais. É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos. Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar. Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos. E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

Nunca é tarde demais para reconhecer os valores do ser humano, do cronista e do cidadão Lourenço Diaféria, um verdadeiro herói. Herói vivo. Vivo para sempre. Pois quem tem a sensibilidade demonstrada por Diaféria jamais morre.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

17/9/2008 23:24:25

domingo, 14 de setembro de 2008

Por quê? (125) Nostalgia e Joel Silveira


Cláudio Amaral

Passa do meio-dia.

O dia está tão carrancudo quanto amanheceu.

Sol? Nem pensar.

Calor? De jeito algum.

Ao contrário, faz frio.

Frio de agasalhos leves, mas frio.

Já choveu, mas foi tão pouco que não há mais sinais de chuva no asfalto.

Sinto uma profunda nostalgia.

Algo estranho toma conta do meu peito nesta metade de domingo, 14 de setembro de 2008.

Há anos, muitos anos, hoje, se dia útil fosse, seria data de pagamento da prestação de meu apartamento na Rua Machado de Assis, 165, quase esquina da Rua Gregório Serrão, na Vila Mariana, divisa com a Aclimação.

Mas, isso foi há muito tempo.

O apartamento foi totalmente pago com uso do meu FGTS e anos depois, uma vez vendido, usei o dinheiro para pagar um terço de um sobrado que ainda é meu – ou melhor, da minha família – na mesma Rua Machado de Assis.

Estou só, ou melhor, estamos eu e Deus, como quase todos os sábados e domingos dos últimos dez meses, num apartamento grande e vazio da Rua Dr. Diogo de Faria com a Rua Marselhesa.

O frio e a cor cinza que tomam conta deste dia, pós Corinthians 1 X Grêmio Barueri 0, me dizem que ficarei só, ou melhor, eu e Deus, o dia todo.

Nem vontade de ligar a mini-tv que trouxe comigo, de casa, eu tive.

O radinho de pinhas? Também não saiu da pasta de couro que me acompanha há cinco anos.

O único objeto que empunhei e manuseei hoje, depois que aqui cheguei, foi um livro.

Estou a ler Joel Silveira.

Estou, não; estava a ler até que senti vontade e comecei a escrever.

Lia A feijoada que derrubou o governo, apresentado na última capa como o livro que traz perfiz, reportagens e artigos sobre a política do Brasil e do mundo, pelo repórter a quem Assis Chateaubriand apelidou de “víbora” e classificou como “um dos homens mais perigosos deste país”.

Até o dia 15/8/2007, Joel Silveira foi o maior repórter vivo que o Brasil teve.

Agora, só nos resta admirar, ler e reler, ver e rever as reportagens de José Hamilton Ribeiro, que, felizmente, ainda está vivo, bem vivo, e reportando para nós que temos privilégio de vê-lo quase todos os dias pela Rede Globo de Televisão. Ele é repórter especial do Globo Rural.

Sim, ainda temos grandes e bons repórteres em atividade. Clóvis Rossi e Ricardo Kotsch são dois deles. Dois que me ensinaram muito no início de minha carreira como repórter, em princípios dos anos 1970, quando cheguei a São Paulo pelo Estadão.

Mas, ainda assim, Joel Silveira nos faz falta. Muita falta.

Ainda bem que hoje eu estou com tempo de sobra para ler e reler Joel Silveira (Lagarto, Sergipe, 23/9/1918 + Rio de Janeiro, 15/8/2007). Para ler e reler Joel Silveira e também para curtir a nostalgia que me domina neste domingo frio e cinzento.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

14/9/2008 17:23:47

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Por quê? (124) Entre livros












Cláudio Amaral

Se eu pudesse, pararia de trabalhar agora, não assumiria mais um único compromisso profissional e viveria só para a família e os livros.

Talvez, mais para os livros do que para a família. Afinal, todos os seres humanos que vivem à minha volta têm vida própria.

Sim, eles precisam de mim e eu deles. Mas, verdade seja dita, eles carecem cada vez menos de mim. Felizmente.

Tenho cada vez mais certeza de que eu seria mais feliz se pudesse me dedicar quase que em tempo integral aos livros.

Livros feitos de papel, é importante que se diga.

Senti isso intensamente durante as poucas horas que passei dentro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, localizado na confluência da Avenida Paulista com a Alameda Santos e as ruas Augusta e Padre João Manuel.

Isso aconteceu na manhã de quarta-feira, 3 de setembro de 2008.

Sueli precisava fazer contatos no Consulado da Itália e eu fui com ela, porque estava de folga no trabalho.

Fui mas nem cheguei a entrar no prédio da representação diplomática italiana. Preferi ir aos livros na Cultura.

Só não passei o dia todo na mega livraria de Pedro Herz porque uma ligação telefônica da Sra. Olga me fez tomar o Metrô de volta para a Vila Mariana às 11h05.

Mas, valeu.

A paz dominou o meu ser enquanto eu estive entre milhares e milhares de livros em português, espanhol, inglês, alemão, francês e não sei quantos outros idiomas.

Senti vontade de comprar pelo menos cinco deles.

De cara, revi A Trajetória do ‘seu’ Frias (Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1912 + São Paulo, 29 de abril de 2007), meu ex-patrão, escrita pelo jornalista Engel Paschoal; passei por obras inesquecíveis de Gabriel Garcia Marques, como Cien anõs de soledad, que li na época em que estudava espanhol no Colégio Miguel de Cervantes, no bairro do Morumbi, aqui em São Paulo; lembrei com tristeza de Sérgio Vieira de Mello (Rio de Janeiro, 15 de março de 1948 + Bagdá, 19 de Agosto de 2003), que, segundo a escritora norte-americana Samantha Power, foi um dos mais corajosos e carismáticos diplomatas dos nossos tempos; passeei com prazer por obras de Clarice Lipector (Chechelnyk, Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 + Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).

Ao colocar os olhos sobre a biografia que Samantha Power escreveu a respeito de Sérgio Vieira de Mello, pensei em comprá-la porque desejo conhecer a fundo, tanto quanto possível, a vida e obra de um dos brasileiros mais conhecidos e elogiados nos meios políticos e diplomáticos em todo o mundo. E também porque um dos meus filhos é leitor incansável de biografias.

Mas, confesso, quem mais chamou a atenção foi Clarice Lispector (foto).

Folheei duas obras dela: Minhas queridas e Entrevistas.

A primeira eu conheço há meses e sempre me deixou curioso por se tratar de uma coleção de 120 cartas inéditas escritas por Clarice para as irmãs, Tania Kaufmann e Elisa Lispector, entre 1940 e 1957.

A respeito da segunda eu não tenho lembranças. Entrevistas me tocou de perto por se tratar de diálogos que a escritora e jornalista publicou entre maio de 1968 e outubro de 1969 na revista Manchete e em fins de 1976 em Fatos e Fotos - Gente. Entre os interlocutores dela figuram Chico Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer e Ferreira Gullar.

Quero ler uma a uma. Tanto as cartas publicadas em Minhas queridas, quanto as Entrevistas.

Para isso, entretanto, vou ter que voltar à Livraria Cultura, porque, infelizmente, sai de lá às pressas, na manhã de quarta-feira, sem ter comprado um único livro.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

4/9/2008 13:09:05