segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Por quê? (311) – SÃO PAULO EM 2040



Cláudio Amaral

Na sala, a televisão deu a notícia e ela, na cozinha, desdenhou. Também na cozinha, ele fez cara de sério, como quase sempre. O casal era assim: ela duvidava de tudo e ele acreditava em quase tudo. Ela nunca acreditara nas promessas do PT e saia logo criticando. Ele tinha por princípio acreditar para depois criticar ou aplaudir, conforme o caso.

Eles sempre votaram na oposição situada mais ao centro. Primeiro, no MDB, o Movimento Democrático Brasileiro de Ulisses Guimarães, Tacredo Neves, Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso. Depois, no PMDB. E nos últimos tempos no PSDB, o Partido da Social Democracia Brasileira, desde que Montoro, Covas e FHC resolveram romper com os antigos parceiros, deixando de lado e à própria sorte gente como Orestes Quércia, Michel Temer e outros.

Nas últimas eleições municipais, aquelas que elegeram prefeito um filiado ao PT e derrotaram o candidato do PSDB, eles ainda votaram no mesmo concorrente, José Serra. Mas para ele tudo indica que foi a última vez.

Ela já havia se revoltado com o apoio que o ex-presidente Lula e a atual presidente Dilma Roussef deram a Fernando Haddad desde a escolha do ex-ministro da Educação para concorrer a prefeito de São Paulo. Ficou mais revoltada ainda quando a eleição se consumou. Não se conforma até hoje com o fato de o povo paulistano ter elegido um candidato do Partido dos Trabalhadores.

Ele, não. Como há tempos deixou de acreditar em Serra, saiu dizendo que foi melhor assim. E disse mais: que a população da Capital paulista só vai ter a ganhar com a escolha de um político jovem, cheio de garra e vontade de acertar.

Agora, então, que ele ouviu que a Prefeitura de São Paulo está planejando a cidade para 2040, ficou mais otimista ainda. Mesmo sabendo que daqui a 28 anos estará com 90 anos, se vivo estiver.

Ele sempre defendeu a tese de que cada cidade deveria ter uma “Comissão do Futuro”. Ou seja, uma equipe dedicada exclusivamente a pensar na cidade que nossos moradores – crianças, jovens, adultos e idosos – terão daqui a pelo menos dez anos.

Vinte anos? Vinte e oito anos? Melhor ainda. E se possível for, essa comissão que agora se anuncia deve se dedicar a pensar, ao mesmo tempo, na São Paulo de 2050.

Só assim, na opinião dele, será possível deixar para os netos de todos nós – Beatriz e Murilo, inclusive, que estão com 5 para 6 e com 2 para 3 anos – uma cidade menos desumana, menos insegura, menos selvagem, menos suja, menos poluída, menos congestionada, menos individualista, menos indisciplinada.

É nisso que ele acredita. E ela também, com absoluta certeza.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968.

19/11/2012 15:45:23  (horário de Brasília)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Por quê? (310) – De pai para filho (e vice-versa)



Cláudio Amaral

Filmes memoráveis e inesquecíveis. Filmes históricos. Filmes que representam lições de vida. Assim costumam ser os filmes biográficos. Assim são filmes como Dois Filhos de Francisco e Gonzaga – De Pai para Filho.

Fiquei emocionado e chorei (e muito) ao ver essas duas películas nacionais, ambas dirigidas por Breno Silveira: Dois Filhos de Francisco em Franca (SP), em fins de 2005, quando eu trabalhava para o diário Comércio da Franca, e Gonzaga – De Pai para Filho no início da noite de quinta-feira (15 de novembro de 2012). Em ambos eu estava ao lado da minha Sueli Bravos do Amaral, mas não posso falar por ela; só por mim.

Dois Filhos de Francisco me emocionou muito porque a história de Zezé Di Camargo e Luciano tem tudo a ver com a minha, especialmente na chegada a São Paulo. Eles vindo de Goiás e eu de Adamantina, no Interior paulista. Passamos, tanto eles quanto eu, por dificuldades que não esqueceremos jamais e que passaram, passam e passarão milhões de brasileiros.

Gonzaga – De Pai para Filho me tocou fundo pelas marcantes divergências entre Gonzagão, o chamado Rei do Baião, com o filho dele, Gonzaguinha. Eles passaram a maior parte da vida distantes, um longe do outro e cada um tendo uma visão da vida. Tudo por conta da música e dos shows que fizeram pelo País.

Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão, nasceu em Exu, no sertão pernambucano, a 13 de dezembro de 1912 e faleceu em Recife, a capital daquele Estado, a 2 de agosto de 1989. Foi sanfoneiro, cantor e compositor dos mais populares no Brasil e era conhecido como o Rei do Baião. No Exército, que serviu por dez anos, se destacou como corneteiro e se orgulhava de jamais ter dado um tiro sequer.

Luiz Gonzaga do Nascimento Junior , o Gonzaguinha, nasceu no Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1945 e faleceu em desastre de automóvel em Renascença, no Paraná, a 29 de abril de 1991. Antes, se tornou “doutor” (em Economia), como queria o pai, mas foi famoso como cantor e compositor. Idealizou e criou o Movimento Artístico Universitário (MAU).

Um, Gonzagão, foi obrigado a prestar serviços aos militares de plantão após a ditadura de 1964. O outro, Gonzaguinha, fez tudo o que lhe foi possível para combater e difamar o regime comandado por Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Figueiredo e outros tantos.

O mais marcante, entretanto, não foi isso. O que mais marcou as vidas de Gonzagão e Gonzaguinha, como se viu na vida real e no filme Gonzaga – De Pai para Filho, foram as desavenças e desencontros de ambos e entre os dois.

Vistos de fora, nas telas dos cinemas (como vimos na sala 9 do Cinemark do Shopping Santa Cruz, em São Paulo), tais desavenças e desencontros parecem absurdos, desnecessários, descabíveis. Mas foram reais. Tão reais como as muitas histórias de vida que acontecem desde sempre em lares e em ruas do Brasil todo.

Quantos mais famosos os personagens da vida pública, no Brasil e no mundo, maiores os conflitos entre seres humanos, homens e mulheres, pais (e mães) e filhos (e filhas), irmãos e irmãs, avôs e avós, chefes e chefiados, professores e alunos, etc.

Aqui, entretanto, os alvos são os pais e filhos. Como Gonzagão e Gonzaguinha. Pais (e mães) que geram filhos para dar-lhes amor, carinho, ensinamentos, educação, proteção e principalmente bons exemplos. Jamais para abandoná-los, mesmo que – como fez Luiz Gonzaga com Luiz Gonzaga Júnior – dando-lhes todos os bens materiais possíveis e imagináveis.

O melhor seria que filmes como Gonzaga – De Pai para Filho não fossem necessários. Mas já que casos como esse existem e são necessários, que eles sirvam de exemplo para nos ensinar a ser pais (e mães) melhores, mais compreensivos, mais pacientes, mais amorosos, mais didáticos, mais, mais e mais. Com mais diálogos e sem nunca, entretanto, nos fazer capazes de criar e educar inadequadamente os nossos filhos e filhas. Afinal, é conversando que a gente se entende. Gente de bem, especialmente. Gente que ama e respeita os seus semelhantes acima de tudo e de todos.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968.

16/11/2012 15:15:18  (horário de Brasília)