quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Por quê? (356) – O Esquife do Caudilho


Cláudio Amaral

É difícil, quase impossível, encontrar palavras para analisar o livro de Daniel Pereira. Tudo o que eu queria dizer foi dito pelos Jornalistas Joaquim Maria Botelho (autor da apresentação, nas páginas 9 a 12) e Gabriel Emídio (nas orelhas).

Para Botelho, é “coisa de memorialista, este livro. E dos bons”. Para Emídio, que, além de escrever o texto das orelhas, fez a revisão da obra, “bem mais que alusão à morte de Getúlio Vargas, o título instiga e chama para dentro do livro”.

O lançamento foi no dia 14/12/2015, no Memorial da América Latina, em São Paulo, mas demorei exatos 70 dias para começar a ler O Esquife do Caudilho.

Nesse tempo, a obra, editada pela Pasavento, esteve nas mãos de Mauro Amaral (meu filho do meio) e de Sueli Bravos do Amaral (minha namorada desde 1969). Ambos falaram muito bem das 51 crônicas de Daniel Pereira e acrescentaram: ele cita você em pelo menos três delas.

Claro que isso aumentou minha vontade de ler as tão esperadas memórias de um dos meus três melhores Amigos, entre os muitos Jornalistas que conheço. Mesmo assim, só peguei nelas no dia 24/2/2016, aqui em Ashburn, Virgínia, na Costa Leste dos EUA.

Antes, me distrai com a conclusão da leitura de O nome de Deus é Misericórdia – uma conversa (do Papa Francisco) com Andrea Tornielli e um certo capitão rodrigo, de Erico Verissimo.

Por que tanto enrolação (?), me perguntei um dia desses. E eu mesmo me respondi: Sabe que não sei. Uma explicação deve haver, mas deve estar oculta, a ser descoberta.

Ciúme, talvez? Inveja, quem sabe? Pode ser, admito. Afinal, tenho pelo menos cinco livros escritos e nenhum publicado. Mas saio em minha defesa argumentando: Daniel Pereira é mais rodado do que eu; tinha que sair na minha frente com suas memórias.

Quem nos conhece – a Daniel Pereira e a mim – sabe que trabalhamos juntos por anos, muitos anos. Dividimos inúmeras empreitadas na COMUNIC Comunicadores Associados S/C Ltda.,  empresa que criei e registrei dia 21/8/1978. E sempre fomos vitoriosos, como está nas páginas 57, 154 (duas vezes) e 212.

Trabalhos, citações e amizade à parte, o fato é que as memórias de Daniel Pereira têm muito a ver com a minha trajetória: somos caipiras do Interior paulista (ele de Assis, eu de Adamantina), nascemos pobres, vencemos pelas nossas próprias forças e muita determinação, trabalhamos nas mesmas ocasiões em três empresas (no Grupo Estadão, na COMUNIC e na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), tivemos muitos Amigos em comum (Joaquim Maria Botelho, Guilherme Degani, Sircarlos Parra Cruz, Zé Cabrera, Gabriel Emídio, Osmar Santos, Luiz Carlos Sperandio, Orlando Duarte, Eli Coimbra, Divaldo Zogaib de Mello – o Turco, Alaor Martins, Geraldo Fernandes, Raul Martins Bastos, José Aparecido Miguel e Claudemir Strabelli, pai da Francine e do Bruno, que seguem vivendo na nossa Adamantina), fomos boias frias e engraxates, fizemos pontas em circos, somos apaixonados pelo veículo rádio e somos torcedores do mesmo TIMÃO.

Lendo, avidamente, O Esquife do Caudilho vi que não fui o único a sentir a morte de perto (página 95), lembrei-me do meu pai (Lázaro Alves do Amaral, o Lazinho) e do meu sogro (José Padilla Bravos, o Jornalista José Arnaldo, que integrou a FEB e como tal foi combatente na Segunda Guerra Mundial e participou da tomada de Monte Castelo, na Itália, tal qual o marido da viúva da página 51).

Outras coincidências: também frequentei a discoteca de uma emissora de rádio (a Brasil de Adamantina), onde eu e meus Amigos nos trancávamos para escutar a música em que Geraldo Vandré cantava, num Maracanãzinho lotado: Caminhando e cantando/E seguindo a canção/Somos todos iguais/Braços dados ou não... (página 69).

Nem por isso somos iguais em tudo. Ao contrário de DP, um descrente confesso nas coisas de religião, sou Católico Apostólico Romano praticante e como tal voluntário na Paróquia Santa Rita de Cássia de Vila Mariana, em São Paulo. Outras diferenças: nunca fumei. Beber, sim. Já bebi muita cerveja, mas nunca tanto quando ele; e, há pelo menos cinco anos, quando bebo, só sem álcool.

Para arrematar, porque esta análise está passando dos limites, quero deixar claro que O Esquife do Caudilho revelou-me um outro lado deste meu Amigo: não sei se teria a coragem que ele teve de contar tudo o que contou a respeito da vida pessoal dele e dos pais.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral (clamaral@uol.com.br) é jornalista desde 1º de maio de 1968, Mestre em Jornalismo para Editores pelo IICS/SP (Turma de 2003) e Biógrafo pela FMU/Faculdade de História/SP (Turma de 2013/2015).

25/02/2016 21:31:15 (pelo horário de Inverno da Costa Leste dos EUA, onde estamos duas horas antes do horário de Brasília)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Por quê? (355) – Com ou sem planejamento?


Cláudio Amaral

Na busca de um caminho a seguir como escritor e consultor, devoro livros e mais livros.

O mais recente foi O nome de Deus é Misericórdia.

Trata-se de “uma conversa” que tiveram, em Roma, em julho de 2015, o Papa Francisco e Andrea Tornielli, “vaticanista, jornalista do La Stampa e responsável pelo site Vatican Insider”.

Em seguida – ou seja, exatamente nesta manhã fria da Costa Leste dos Estados Unidos, onde resolvi passar três semanas de férias, de 14/2 a 4/3/2016 –, peguei para reler um entre os nove livros que trouxe do Brasil.

E o escolhido foi um certo capitão rodrigo, escrito por Erico Verissimo, um dos mais destacados escritores que o Brasil já teve.

Nem parece que minha escolha foi aleatória. Foi como se tivesse escolhido de propósito. Afinal, nesta obra, Verissimo, o pai, faz uma série de referências ao modo de escrever um livro.

Logo na abertura o autor se e nos situa escrevendo:

- Estou na Rua dos Andradas, em Porto Alegre, no inverso de 1948.

A partir de então, Verissimo relata em detalhes a visita que ele fez a ele mesmo na Livraria do Globo. Eram dois personagens numa pessoa só: um representava o jovem autor de um certo capitão rodrigo em 1948; o outro, com 20 anos mais, tinha recebido dos editores a missão de produzir uma introdução para esta edição especial que estou relendo sob o frio estadunidense de 2016.

Exatamente no diálogo dos dois é que encontrei algumas dicas sobre como escrever uma obra, mesmo sabendo que jamais terei capacidade para gerar livros como os que Verissimo escreveu ao longo da vida:

- Todo escritor, dentro de certa medida, tem o direito de autoplagiar-se.

Com essa frase, na página 10, Verissimo passou a primeira experiência que eu busco – e que pretendo passar à frente, toda vez que for possível e solicitado.

Na página seguinte, ele detalhou mais, logo após o relato do escritor de 1948, a quem perguntara como ele, 20 anos antes, conseguia escrever em meio a cheiros de frituras que vinham dum restaurante ao lado:

- Ora, você conhece o truque. A gente foge para a paisagem da estória que está imaginando e lá se esconde, entre as personagens.

Em seguida, ele (o de 1948) pergunta a ele mesmo (o de 1970):

- Sabe onde estava eu quando você entrou? Nos campos que circundam Santa Fé, onde agora é primavera. Sentia na cara uma brisa perfumada de flores e ervas.

No final da página 13 e início da 14, outra lição importante:

- Você sabe que para principiar um livro necessito primeiro dum plano, cuja finalidade se parece com a dos projetos para uma construção arquitetônica.

Mas, na minha santa ignorância, imaginava exatamente o contrário, ou seja, que melhor seria escrever sem plano algum. E agora? O que faço se não tenho plano?

Verissimo, que já não sei se é o de 1948 ou o de 1970, é quem me tira dessa enroscada:

- E o livro será um desastre se você seguir rigorosamente esse plano...

E por que, então, precisarei de um plano, se não vou segui-lo, Sr. Erico Verissimo?

A resposta está numa outra frase da página 14:

- Necessitamos dum plano principalmente para desobedecer a ele.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral (clamaral@uol.com.br) é jornalista desde 1º de maio de 1968, Mestre em Jornalismo para Editores pelo IICS/SP (Turma de 2003) e Biógrafo pela FMU/Faculdade de História/SP (Turma de 2013/2015).

19/02/2016 17:39:28 (pelo horário de Inverno da Costa Leste dos EUA, onde estamos três horas antes do horário de Verão de Brasília)