quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Por quê? (190) Vida nova


Cláudio Amaral

Foi colocando ordem em toda a minha vida, pessoal e profissional, neste finalzinho de 2009, que encontrei anotações, por exemplo, que nem mais sabia existir.

A entrevista que fiz com meu Amigo e Compadre Carlos Conde, por exemplo, cometida a partir das 18h25 do dia 20/5/2004, em função de um novo livro em gestação: Como e por que surgem os nossos jornais?

Junto a tal manuscrito, que já digitei e a ele mandei, encontrei um outro, de quatro páginas.

O título é Vida nova.

Nelas, ou seja, nas quatro páginas e sob esse título, me identifico em boa parte.

Outras partes, entretanto, desconheço por completo.

O manuscrito está datado, logo no início: 15/5/2004, 14h50.

A primeira frase é um enigma: “A vida nunca mais foi a mesma depois de 40+40”.

A segunda, também nada tem a ver comigo: “Muitos pedidos de entrevistas, todos negados”.

Na terceira, uma certeza, mas ainda assim enigmática: “Ele queria paz, sombra e água fresca”.

Ele? “Ele quem, cara pálida”, como diria meu Amigo Daniel Pereira, jornalista como eu e meu parceiro de tantas jornadas.

E assim segue o manuscrito, que, sim, tem a minha letra:

- Dinheiro? Sim, precisava de dinheiro, mas aquela não era hora de pensar em dinheiro. Era hora de pensar nos 40+40, de tirar lições da experiência, de olhar bem de frente para a família, de curtir a netinha.

Netinha? Mas minha querida e amada netinha, a Be(bê)atriz, só veio a nascer no dia 12/6/2007. E tem mais: em maio de 2004 minha filha Cláudia, a mãe dela, nem era casada.

Essa, entretanto, é uma outra questão. O que interessa, no momento, é decifrar o enigma do manuscrito que acabo de encontrar e que tem a seguinte sequencia:

- Ele queria ter tempo também para fazer as atividades que mais gostava: andar a pé pelo bairro onde morava desde 1971, visitar e conversar com os amigos, viajar de carro.

Nesta parte eu me identifico, sim. E na próxima também:

- Depois, talvez, ele fosse fazer algo que havia descoberto que gostava: ensinar. Ensinar com paciência, porque antes ele dizia que não tinha paciência para ensinar. Especialmente se tivesse que ensinar a mesma tarefa mais de uma vez. Agora, sim, estava disposto.

Nesta próxima, a identificação comigo é maior ainda:

- Queria escrever. Escrever, sim. Dar entrevista, não. Ele sabia bem o que os entrevistadores faziam com os entrevistados.

Tem mais. Mais manuscrito e mais identificação:

- Queria ler. Ler todos os livros que acumulara ao longo dos anos. Até reler alguns, como “Quem ama não adoece”, emprestado pela terapeuta.

Qual terapeuta? No manuscrito ela não está identificada, mas, se for a minha, ela se chama Marta Maria Peretti e neste momento deve estar em férias junto à família, em Presidente Prudente (SP).

- Queria terminar a leitura do livro sobre Barcelona, emprestado pela amiga Lucila (Cano?).

- Queria ler um outro emprestado da terapeuta: “O Romance”, de James A. Michener.

Queria mais, de acordo com o que leio agora no manuscrito de minha autoria:

- Queria sair pelo interior do Brasil ensinando tudo o que aprendera em 36 anos de Jornalismo, desde 1º de maio de 1968, quando fizera a primeira reportagem, em Adamantina (SP).

Essa parte tem tudo a ver comigo: Jornalismo, 1º de maio de 1968, primeira reportagem em Adamantina. Tudo a ver.

Mas, vamos em frente:

- Queria ajudar os amigos a vencer o desemprego, que atingia números fantásticos no Brasil: só em São Paulo, capital, eram mais de dois milhões no início de 2004. E muitos amigos dele estavam sem emprego, apesar das promessas de Lula e de Serra nas eleições de 2002: “Criarei mais de 10 milhões de empregos”.

“Criaremos como, cara pálida?”, perguntaria novamente Daniel Pereira.

Uma outra parte do manuscrito tem tudo a ver comigo, embora não possa garantir que sou eu o personagem da história:

- Queria estudar Teatro, um sonho desde a juventude, quando subiu ao palco do circo que todo ano era montado em frente à casa dele, em Adamantina.

Opa! Essa parte também tem tudo a ver comigo.

A seguinte, entretanto, me deixa em dúvida:

- Recebeu convite para fazer cinema.

Afinal, o convite que recebi em relação a “fazer cinema” se referia a um curta metragem, mais experimental do que profissional.

A próxima parte, então, é sonho puro:

- Escreveu um livro dos 40+40 e ganhou muito dinheiro. Fez muitas doações em segredo. Deu muitas entrevistas, finalmente. Deu conferencias, porque falar em público ele gostava desde jovem, na Seicho-No-Iê, em Adamantina. Viajou muito. O Brasil todo. Ficava horas respondendo perguntas da platéia. Só ia embora quando todos tinham feito perguntas. Dava autógrafos sem pressa, porque achava um desrespeito fazer isso às pressas, impessoalmente. Sempre escrevia o nome do solicitante e uma mensagem diferente, por menor que fosse o papel que lhe era apresentado.

Sonho. Sonho puro.

Por fim, algo que me parece real:

- Ia aos jogos do Corinthians. Insistia em ir, especialmente ao estádio do Pacaembu, porque lá reencontrava os amigos dos tempos de reportagens esportivas pelo Estadão (1970/75).

Diante disso tudo, eu fico a imaginar se não teria sido esse manuscrito uma tentava de misturar a ficção com a realidade.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968, repórter, editor, professor e orientador de jovens jornalistas, palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação empresarial e institucional.

31/12/2009 16:27:14

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Por quê? (189) Papai Noel


Cláudio Amaral

Estávamos numa quinta-feira, dia 17/12/2009.

Sueli e eu havíamos subido a Serra do Mar para passar em São Paulo as festas de fim de ano.

Como quinta-feira é dia do rodízio do nosso FIT Honda, embarcamos no Metrô na Ana Rosa e desembarcamos no Alto do Ipiranga, a última (ou seria a primeira?) estação da linha verde.

Ao chegar ao Condomínio Chácara Santa Cruz, na esquina da Rua Assunguí com a Santa Cruz, fomos abordados por um conhecido que havia se vestido de Papai Noel em 2008.

Ele foi direto ao assunto: disse que estava à procura de alguém que quisesse ser o Papai Noel da garotada em 2009.

Disse mais: que eu tinha “o perfil físico ideal”, ou, como diria meu diretor de interpretação Nill de Pádua, nos bons tempos de Oficina de Atores Nilton Travesso, lá pelos idos de 2004, o “physique du rôle” de Papai Noel.

Mesmo sem saber se Gilberto, que se vestira de Papai Noel em 2008, estava a me elogiar ou me depreciar, continuei a ouvi-lo atentamente.

Ele contou que havia tido a ideia no momento exato em que nos viu, a mim e a Sueli, ultrapassar a portaria do condomínio onde vivem minha filha Cláudia, meu genro Márcio Gouvêa e minha netinha Beatriz.

Qual ideia?

A ideia de me convidar para que eu me vestisse de Papai Noel.

Gilberto explicou que gostara da experiência, ano passado, mas estava com um “pequeno problema”: a maioria da garotada já sabia que seria ele o Papai Noel.

Isso quebraria o encanto, segundo ele.

Topei no ato.

Topei sem pensar.

Foi tão rápido, que Gilberto nem acreditou e me perguntou:

- Você topa? Topa mesmo?

Aceitei a missão e daí em diante foi só alegria e diversão.

Com base na experiência do ano passado, Gilberto me deu todas as dicas: me levou para trocar de roupa na sauna (que felizmente não estava funcionando naquele dia), fixou um travesseiro na barriga, ajeitou a barba branca e o chapéu vermelho, me explicou o que fazer com as calças e como manipular o saco de presentes (balas e pirulitos).

Gilberto me orientou inclusive como tratar a garotada quando eu chegasse ao salão da juventude.

- Você pega a criança e coloca no colo, pergunta o nome e o presente que ela pediu ao Papai Noel. Pergunta também se ela se comportou ao longo do ano e se acredita que mereça o que pediu. No fim, enfia a mão direita no saco de balas e pirulitos.

Foi moleza.

O duro foi aguentar o calor que sentia dentro daquela roupa de Papai Noel.

Mas isso não foi o mais difícil.

O mais difícil foi disfarçar o suficiente para que a pequena Beatriz do Amaral Gouvêa, de dois anos e meio completados no dia 12, não descobrisse quem era o Papai Noel.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968, repórter, editor, professor e orientador de jovens jornalistas, palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação empresarial e institucional.

21/12/2009 13:12:32