domingo, 14 de setembro de 2008

Por quê? (125) Nostalgia e Joel Silveira


Cláudio Amaral

Passa do meio-dia.

O dia está tão carrancudo quanto amanheceu.

Sol? Nem pensar.

Calor? De jeito algum.

Ao contrário, faz frio.

Frio de agasalhos leves, mas frio.

Já choveu, mas foi tão pouco que não há mais sinais de chuva no asfalto.

Sinto uma profunda nostalgia.

Algo estranho toma conta do meu peito nesta metade de domingo, 14 de setembro de 2008.

Há anos, muitos anos, hoje, se dia útil fosse, seria data de pagamento da prestação de meu apartamento na Rua Machado de Assis, 165, quase esquina da Rua Gregório Serrão, na Vila Mariana, divisa com a Aclimação.

Mas, isso foi há muito tempo.

O apartamento foi totalmente pago com uso do meu FGTS e anos depois, uma vez vendido, usei o dinheiro para pagar um terço de um sobrado que ainda é meu – ou melhor, da minha família – na mesma Rua Machado de Assis.

Estou só, ou melhor, estamos eu e Deus, como quase todos os sábados e domingos dos últimos dez meses, num apartamento grande e vazio da Rua Dr. Diogo de Faria com a Rua Marselhesa.

O frio e a cor cinza que tomam conta deste dia, pós Corinthians 1 X Grêmio Barueri 0, me dizem que ficarei só, ou melhor, eu e Deus, o dia todo.

Nem vontade de ligar a mini-tv que trouxe comigo, de casa, eu tive.

O radinho de pinhas? Também não saiu da pasta de couro que me acompanha há cinco anos.

O único objeto que empunhei e manuseei hoje, depois que aqui cheguei, foi um livro.

Estou a ler Joel Silveira.

Estou, não; estava a ler até que senti vontade e comecei a escrever.

Lia A feijoada que derrubou o governo, apresentado na última capa como o livro que traz perfiz, reportagens e artigos sobre a política do Brasil e do mundo, pelo repórter a quem Assis Chateaubriand apelidou de “víbora” e classificou como “um dos homens mais perigosos deste país”.

Até o dia 15/8/2007, Joel Silveira foi o maior repórter vivo que o Brasil teve.

Agora, só nos resta admirar, ler e reler, ver e rever as reportagens de José Hamilton Ribeiro, que, felizmente, ainda está vivo, bem vivo, e reportando para nós que temos privilégio de vê-lo quase todos os dias pela Rede Globo de Televisão. Ele é repórter especial do Globo Rural.

Sim, ainda temos grandes e bons repórteres em atividade. Clóvis Rossi e Ricardo Kotsch são dois deles. Dois que me ensinaram muito no início de minha carreira como repórter, em princípios dos anos 1970, quando cheguei a São Paulo pelo Estadão.

Mas, ainda assim, Joel Silveira nos faz falta. Muita falta.

Ainda bem que hoje eu estou com tempo de sobra para ler e reler Joel Silveira (Lagarto, Sergipe, 23/9/1918 + Rio de Janeiro, 15/8/2007). Para ler e reler Joel Silveira e também para curtir a nostalgia que me domina neste domingo frio e cinzento.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

14/9/2008 17:23:47

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