domingo, 20 de fevereiro de 2011

Por quê (222) Quantos de nós?


Cláudio Amaral

Li a reportagem intitulada “Como nossos pais”, publicada pelo Estadão de 17/3/2008 sob a assinatura de Patrícia Villalba, e fiquei com dúvidas – várias, inúmeras, seja lá o que for – na cabeça no meio do dia 19/3/2008.

São questões que na época dividi com e-leitores do blogue Aos Estudantes de Jornalismo.

O objetivo – tanto na época quando hoje – é provocar reflexões e debates a respeito.

1) Queridos Amigos, título da minissérie que a Rede Globo de Televisão exibiu até o dia 28/3/2008, é, igualmente, um livro escrito por Maria Adelaide Amaral, chamado Aos Meus Amigos. Quantos de nós lemos esta obra da autora do texto da minissérie, editado pela Globo?

2) Na abertura da reportagem, Patrícia Villalba faz referência ao “esfacelamento das ilusões políticas que sobraram depois da Anistia, da campanha pelas Diretas, da morte de Tancredo Neves e, enfim, da eleição de 1989”. Quantos de nós conhecemos bem esses temas tão importantes da vida nacional e indispensáveis para o exercício da nossa profissão?

3) A separação de casais é um dos temas centrais da trama criada por Maria Adelaide Amaral em Aos Meus Amigos e em Queridos Amigos. Quantos de nós já paramos para pensar em casamento, vida a dois e separação? Quantos de nós casa (ou casou) e separa (ou separou) sem sofrer, sem dar a menor importância às consequências dos nossos atos? E quantos de nós aprendemos (ou conseguimos aprender) com os casamentos, a vida a dois e as separações (nossas e de casais próximos a nós)?

4) Alberto, personagem vivido por Juca de Oliveira, diz e repete: “Não sou um homem que se separa”. Quantos de nós já dissemos isso? Quantos de nós pensamos como ele? Quantos de nós já fez exatamente o contrário, ou seja, já casou e separou com a mesma facilidade e sem pensar nas consequências?

5) Teresa, vivida por Aracy Balabanian, sustenta que “casamento não se desfaz, se aguenta”. É isso mesmo? Ou todos nós temos o direito de tentar novamente e lutar pela felicidade pessoal?

6) Iraci, funcionária pública aposentada e viúva, “não tem tempo para reflexões, quer viver”. Está certa ela? Quantos de nós faz (ou faria) como ela, que namora um homem casado (Alberto) e troca beijo na boca com ele em público, ato que Fernanda Montenegro sempre disse que não faria no cinema, no teatro e na televisão?

7) “Os três (Alberto, Iraci e Teresa) foram sobreviventes. Foram jovens esperançosos no pós-guerra, viveram a ilusão de paz mundial, viram os filhos serem exilados durante a ditadura”, escreveu Patrícia Villalba. Quantos de nós estudamos o período conhecido como pós-guerra, a vida dos brasileiros exilados, a ditadura de 1964 a 1985 e a pretendida paz mundial?

8) Anos 80 (1980 a 1989)? Quantos de nós vivemos este período, sabemos o que se passou naquele decênio e tem condições de falar e escrever a respeito?

9) Fernanda Montenegro fala em Guerra Fria. E nós, o que sabemos a respeito?

10) “Compromisso burguês”, Fernanda? Desde quando casamento é “compromisso burguês”? Ou é, gente?

11) Tancredo Neves? Fernando Collor? Hitler? Quem são? Quem foram?

12) Muro de Berlim? União Soviética? Socialismo? Esquerda? Império? Revolução Francesa? Quantos de nós conhecemos assuntos tão importantes?

13) Na última parte da reportagem, Patrícia Villalba pergunta a Aracy Balabanian: “E como é fazer uma personagem assim, justamente você, que tem uma imagem tão ligada ao humor?” E Aracy respondeu: “É que você é muito novinha”. E acrescentou: “Eu já fiz muita coisa pesada”. Ao dar essa resposta, Aracy foi indelicada com a repórter do Estadão? E, ao fazer a pergunta que fez, a jornalista demonstrou desconhecimento de causa?

Eis aí alguns temas para reflexão por parte de todos nós, cidadãos brasileiros e jornalistas, especificamente. Estudantes de Jornalismo e futuros jornalistas, em especial.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968.

19/3/2008 12:18:02 (atualizado em 20/2/2011)

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