Por quê? (456) – Ganância não é progresso

A ganância é algo que atrapalha a vida do ser humano em todos os sentidos


Cláudio Amaral(*)

 

Chamam de progresso aquilo que, na prática, empobrece o ser humano.

Dão o nome de sucesso ao que esmaga.

Exploram em nome da eficiência e celebram números enquanto ignoram gente.

A ganância virou virtude disfarçada: corre de terno, fala bonito, posa de moderna, mas continua sendo velha (mais velha do que nunca), cruel (mais cruel do que nunca) e profundamente desumana.

Onde a ganância manda, a dignidade pede licença, o afeto vira custo e a vida perde valor.

Venho de um tempo em que pouco se tinha, mas muito se repartia.

A mesa lá em casa, em Adamantina dos anos 1950 e 1960, era simples, o pão contado, e ainda assim sempre cabia mais um.

Aprendi cedo com meus saudosos pais, Wanda e Lázaro Alves do Amaral, que riqueza não era o que sobrava no bolso, mas o que não faltava no caráter.

Talvez por isso me espante tanto ver um mundo que acumula como nunca e reparte como jamais.

Vi o trabalho ser chamado de vocação, não de exploração.

Vi a palavra empenhada valer mais do que contrato.

Vi Professores moldarem destinos sem jamais perguntar quanto isso renderia.

E vi, sobretudo, gente honesta atravessar a vida inteira sem enriquecer, mas sem empobrecer a própria alma.

Hoje, dizem que o mundo mudou.

Mudou mesmo. Tanto na política quanto na economia.

O que quase nunca dizem é para onde.

Porque quando o lucro passa a valer mais do que a vida, não avançamos: retrocedemos.

Quando a esperteza vira mérito e a indiferença, estratégia, algo essencial se perde e não aparece em planilha alguma.

A ganância se infiltrou na política, onde o poder deixou de ser serviço e passou a ser negócio.

A ganância se instalou no mercado, que chama de eficiência o que é pura exaustão humana.

A ganância contaminou relações, transformando gente em degrau.

E, talvez o mais grave, a ganância passou a usar até a fé, vendida em prestações, explorada como promessa, negociada como mercadoria.

Nesse cenário, quem ainda acredita em Justiça é taxado de ingênuo.

Quem fala em ética é visto como ultrapassado.

Quem escolhe a dignidade paga o preço da exclusão.

A crueldade, essa sim, virou sinal de inteligência.

E o sucesso, medido apenas pelo quanto se acumula, perdeu qualquer compromisso com o bem comum.

A ganância não constrói futuro; corrói o presente.

A ganância não gera progresso; gera abismo.

A ganância separa vencedores de descartáveis, transforma direitos em privilégios e normaliza a injustiça com um sorriso profissional no rosto.

A ganância não cansa só o corpo; cansa também a consciência.

A ganância cansa quando assistimos ao ser humano sendo tratado como custo, estatística ou obstáculo.

Progresso de verdade não precisa pisar em ninguém.

Progresso de verdade não exige silêncio dos feridos nem aplauso dos injustiçados.

Progresso que precisa esmagar para subir já nasce falido, ainda que dê lucro.

Talvez resistir, hoje, seja algo simples e radical: continuar humano. Ensinar pelo exemplo. Registrar pela palavra. Não aceitar como normal aquilo que é indecente. Porque quando tudo vira negócio, ser íntegro passa a ser um ato de coragem.

E se isso não for progresso suficiente para alguns, que seja para quem (como eu e milhões de pessoas como eu) ainda acredita em gente, ainda acredita em Deus e em salvação.

Amém!

(*) Cláudio Amaral (claudioamaral49@gmail.comé Católico. Patriota. Anticomunista. Autor do livro-biografia O Cabo e o Jornalista (José Arnaldo 100 Anos) e do livro-autobiográfico Meus Escritos de Memória. Jornalista desde 01/05/1968. Mestre em Jornalismo para Editores pelo IICS/SP (2003). Biógrafo pela FMU/Faculdade de História/SP (2013/2015).

30/01/2026 14:13:51 (pelo horário de Brasília) 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por quê? (299) Carteira de Habilitação Internacional

Por quê? (455) – Obstáculos ou soluções?

Por quê? (72) Adeus, Carlucho