domingo, 13 de julho de 2008

Por quê? (104) A figura foi ao plantão


Cláudio Amaral

Você se lembra, caro e-leitor, daquela figura no mínimo inusitada, à qual me referi pela primeira vez no dia 9 de janeiro de 2008, uma quarta-feira?

Bem, mesmo que você não se lembre, isso não é a questão mais importante do dia.

O importante é que ela, a figura, surgiu do nada, novamente, na manhã deste domingo, 13 de julho de 2008.

Coincidência ou não, hoje é dia 13. E 13 é o número preferido da figura. O número da sorte dela.

Depois de lamentar ter que levantar cedo, ou seja, “7h30 da madrugada”, ela, a figura, tomou um café magro para os próprios padrões, entrou no carro e acelerou para um bairro medianamente distante da zona sul.

- O que será que ela, a figura, vai fazer hoje, em pleno domingo, dia frio?, pensei comigo e com meus botões.

Como se tivesse lido os meus pensamentos, a figura disse:

- Vou acompanhar de perto um dia na vida de um corretor de imóveis.

Assustado com o fato dela, a figura, ter respondido à pergunta que eu me fizera mas não verbalizara, calei-me.

- Melhor ficar calado e vivo do que morrer com a boca cheia de formigas, pensei cá comigo.

O plantão e o corretor escolhidos pela figura estavam numa rua tranqüila e bem localizada, entre a Avenida Vereador José Diniz e a Marginal do Rio Pinheiros, as avenidas dos Bandeirantes e Jornalista Roberto Marinho.

No plantão, dedicado à venda de apartamentos de altíssimo padrão, ao custo de R$ 1,5 milhão por unidade, a figura se espantou de cara com a primeira atividade do corretor e se indagou:

- Além de ficar de plantão por dez horas seguidas, das 9h às 19h, em pleno domingo, e de se dedicar a convencer pessoas a comprarem apartamentos de altíssimos valores, o corretor ainda tem que limpar o chão, as mesas e as cadeiras?

Com a maior paciência do mundo, o corretor de plantão encostou o rodo na parede, endireitou o corpo, respirou fundo e disse, para espanto da figura:

- É isso mesmo. Ou melhor: obrigação eu não tenho, mas, como hoje é domingo e dia de folga da faxineira, ou eu faço a limpeza do chão, das mesas e das cadeiras, ou eu trabalho num ambiente empoeirado, sujo e feio.

Assim que se recuperou do susto, a figura foi para um canto e lá ficou, calada e evitando pensamentos. Ela, a figura, não queria invadir os espaços do corretor, muito menos ter os pensamentos lidos e interpretados por ele.

Ficou só a observar o ambiente e os movimentos.

Foi assim que observou, por exemplo, que às 9h, horário oficial do início do expediente, estava tudo limpo e em ordem.

- Nota 10 eu não mereço, mas zero também não, pensou o corretor enquanto dirigia os olhares em direção à figura.

- Não mesmo, pensou ela, a figura.

- Não mesmo, o quê? Minha nota é 10 ou zero?, indagou o corretor.

Engasgando-se com as palavras, pois ainda não se acostumara a ter os pensamentos invadidos por outra pessoa, a figura respondeu:

- Nem 10, nem zero.

O corretor deu de ombros, entrou num reservado instalado nos fundos do plantão e passou a se dedicar a um outro tipo de limpeza: a lavagem dos panos de chão que havia usado para “higienizar o ambiente”, como ele gostava de dizer.

Em seguida, a figura viu que o corretor se dedicava a ler papeis e mais papeis.

- Estou a estudar o produto, porque, quando o cliente chegar, eu preciso estar com todas as informações na ponta da língua. Afinal, não posso deixar uma pergunta sequer sem resposta.

Discretamente, a figura pensou baixinho:

- Muito bem. Isto sim é que corretor.

O corretor, por sua vez, nada mais disse. Apenas esboçou um leve sorriso entre os dentes.

Antes que a fome o dominasse e a comida fosse colocada para esquentar na marmita elétrica, o corretor se dedicou a atender dois proprietários.

O cliente, mesmo, aquela figura tão esperada, só apareceu depois das 13h. Entrou no plantão, fez uma pergunta atrás da outra, mostrou-se interessado, quis saber dos preços e das condições de pagamento, falou que preferia “isso assim e aquilo assado”, disse que ia buscar a esposa e saiu. Manobrou o carro tão apressadamente, que quase saiu pra cima, na contramão, numa rua de mão única de direção.

Livre do cliente, o corretor procurou não se lembrar que a família estava reunida, em casa, em torno de um peixe à moda capixaba, e almoçou com calma, ali mesmo, no reservado, sem, entretanto, tirar os olhos da porta de entrada. Ele era o único plantonista e não tinha como abandonar o local de trabalho. Nem mesmo para almoçar.

- E quando ele tiver necessidade de ir ao W.C.?, pensou a figura.

- Eu corro, faço tudo sem nem mesmo fechar a porta e de ouvidos bem apurados.

O corretor falou e olhou para o relógio. Viu a hora e pensou no jogo que ia começar no Morumbi: SPFC X Palmeiras, um dos maiores clássicos do futebol paulista.

- Nem ao futebol o corretor tem o direito de ir? Nem pela TV ele pode assistir?

- Não. Nem um, nem outro, respondeu o corretor de imóveis.

- Então, pensou a figura, corretor de imóveis é um alienado? Nem ao futebol ele pode se ligar?

Contrariado com a observação, ele, o corretor de imóveis, respondeu na lata:

- Somos tão alienados quanto o médico, o policial, o jornalista, o enfermeiro, o piloto de avião, o condutor de trem do Metrô, o motorista de onibus..., enfim, como qualquer outro profissional que dá plantão.

Dito isso, ambos, a figura e o corretor de imóveis tiveram as atenções atraídas por gritos de gooooooool vindos do outro lado da rua.

Curiosos, os dois tentaram saber o que acontecia, mas não conseguiram.

Só mais tarde, bem mais tarde, ela, a figura, e ele, o corretor de imóveis, ficaram sabendo que naquele instante, aos seis minutos de jogo, o São Paulo abrira o marcado graças a um gol feito por André Dias, após um cruzamento de Jorge Wagner.

No mais, emoção, mesmo, só as duas quase colisões de veículos em frente ao plantão, por conta das atuações de motoristas irresponsáveis e ou desatentos.

Às 7h da noite, com o dia já escuro por conta do inverno, figura e corretor se foram, cada um para o respectivo destino, sem nem sequer dizer “adeus”, nem mesmo marcar um novo encontro, num outro dia e plantão quaisquer.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

13/7/2008 19:02:55

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