terça-feira, 9 de outubro de 2012

Por quê? (307) – Viajando nos livros (2)



Cláudio Amaral

Revendo e reorganizando minha biblioteca pessoal, nestes primeiros dias de outubro de 2012, contei mais de duas centenas de livros. São publicações selecionadas entre milhares de obras que li desde que aprendi a dominar as letras e as palavras, no início dos anos 1950. Mas tenho uma muito especial. Uma relíquia que não manipulava há tempos, muito tempo: Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas, que me foi dada pelo Amigo Toninho Netto.

No dia 26 de outubro de 1970, quando eu estava por completar dois anos em Marília, Toninho Netto me fez a seguinte dedicatória: “Ao meu Amigo Cláudio Amaral, uma recordação do Setor de Relações Públicas da P. M. M.”

Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas é uma obra datada de 1947, ou seja, foi editada dois anos antes do meu nascimento (3 de dezembro de 1949, em Adamantina). Tem 187 páginas – mais quatro capas e contra-capas – e foi um trabalho financiado pelo Serviço de Estatistica da Prefeitura de Marília.

A maioria das páginas é de textos e números, mas nelas estão fotos também. Fotos de 1919 (matagal e casas), 1923 (primeira derrubada de mato realizada no Patrimônio “Alto Cafezal” naquele ano) e “A Estrada de Ferro Paulista rompendo o espigão rumo à Marília”. Tem fotos também de 1945 (panoramica mostrando casas e alguns prédios) e de pessoas importantes: de Galdino Alfredo de Almeida, fundador do Patrimônio Vila Barbosa; pai e filho Pereira da Silva, fundadores do Patrimônio “Alto Cafesal”; do Predio do Forum, do Posto de Puericultura, de parte da fachada do Ginasio do Estado, da Estação da Rádio Patrulha e da Represa do Norte.

Outras fotos mostram o chamado Stand Pipe (tubo vertical), situado à Rua São Luiz, o ponto mais alto da cidade, com capacidade para 150.000 litros de água, e destinado à distribuição aos domicilios; a Represa do Norte, a bomba colocada na represa da Cascata, a Estação de Tratamento, uma vista parcial do Jardim da Praça Maria Isabel, a fonte e a piscina do Parque Infantil.

A publicação Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas tem mapa, ainda, como o do Municipio de Marilia, muito bem feito, impresso a cores. Bonito, se considerarmos que foi publicado há 65 anos.

Na sequência podemos ver “A Torre”, um “Monolito na Serra da Formosa”. Vemos ainda imagens da Estrada de Ocauçú, duas fotos mostrando vistas do Rio do Peixe e o “Salto dos Anjos” no Corrego dos Anjos com 40 metros de altura. A Fazenda Bom Jesus, de Angelo Montolar Buill, e uma vista parcial do “magnífico cafesal”, outra da lavoura de algodão na Fazenda Santa Emilia, de propriedade de Fernando Vilela.

A “Fiação de Sêda Brasil”, que viria a ser tema de inúmeras crônicas do Jornalista José Arnaldo no Correio de Marília, também aparece em foto de Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas. Assim como duas imagens do trecho de pavimentação a paralelepipedo na estrada da Serra de Casa Grande.

Utilizado por mim quando repórter do Jornal do Comércio de Marília, em duas edições especiais que fiz a propósito dos aniversários da Capital da Alta Paulista, este livro relembra a criação do Distrito de Paz de Marília, em 22 de dezembro de 1926 (Lei 2.161) e as razões da escolha do nome Marília. A propósito, o fundador Bento de Abreu Sampaio Vidal confirmou o que sabemos: “Partindo para a Europa, lembro-me bem que, uma tarde de sol antes do estreito de Gilbraltar, procurei um livro na bibliotéca do (navio) Giulio Cesare e o primeiro que vi foi o de Marília de Dirceu, o famoso poema de Tomaz Antonio Gonzaga”. E Sampaio Vidal segue explicando: “No mesmo momento, lembrei-me que seria Marília o nome da nova cidade, pois, nenhum outro, começando começando por M, seria tão sonante e tão nosso. De bordo mesmo, escrevi uma carta ao dr. Adolfo Pinto, que em minha volta aplaudiu entusiasticamente a nova ideia”.

Outro fato de destaque que encontrei em Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas é a Lei 2.320, de 24 de dezembro de 1928, em que o presidente do Estado, Julio Prestes de Albuquerque, criou o Município de Marilia na comarca de Piratininga. Destaco ainda a homenagem que o Professor Glycerio Póvas fez “aos abnegados e heróicos membros da Comissão Geográfica: engenheiros Olavo Humel, Gentil Assis de Moura, Julio Bierremback de Lima, Mario Airosa, Guilherme Wendel, médicos Otaviano Ferreira da Costa, Abilio Sampaio e botânico Gustavo Edwell, que, arrostando todos os perigos e sacrifícios, percorreram e estudaram os vales dos rios Peixe e Feio em 1905, realizando uma epopéia de trabalho na história do expansionismo paulista”.

Póvoas lembra também o “dinâmico e honrado Prefeito Municipal de Marília, senhor João Neves Camargo, que me estimulou a levar avante esta modesta e desvaliosa publicação”. E dá destaque “à epopéia do café”, porque Marília “surgiu sob a influência irresistível da ambicionada rubiácea e também como consequência da expansão ferroviária do Estado”. Foi o café “principalmente, que arrastou para estas paragens a coragem sem par e a energia dos modernos bandeirantes”.

Em Marilia – Monografia pelo Professor Glycerio Póvoas o autor destaca ainda que “primeiras ruas foram rasgadas obedecendo ao trabalho do engenheiro Francisco Schmidt, retificado posteriormente por Jorge Streit e Leandro Matiazzo”. E que “numa febre estonteante, caminhões, automóveis, carretas e charretes procedentes de todos os pontos cruzam as estradas em demanda do povoado, levando-lhe novos habitantes”.

Mas, afinal, quem foi o Professor Glicerio Póvoas(?), me perguntei quando terminei de folhear o livro que ganhei do Amigo Toninho Neto. E logo fui ao Google, onde encontrei que ele nasceu em Cuiabá, no Mato Grosso, a 3 de maio de 1895. E que aos 43 anos, ou seja, em 1938, era diretor de Contabilidade da Prefeitura Municipal de Marília.

“Em 1940”, relata um documento que encontrei no Google, “dada a sua capacidade, é nomeado Diretor do Ginásio Municipal, ocupando outros cargos até deixar o serviço público para se dedicar à Escola de Comércio de sua propriedade, que transformou em Ginásio Dr. Fernando de Magalhães, já cessada a sociedade com o Professor Antonio Camargo de Almeida Prado”.

Citando Paulo Corrêa de Lara, membro da Comissão de Registros Históricos, uma das fontes que consultei para escrever esse texto registra que “as escolas do Professor Glycerio Póvoas passaram por várias fases e proprietários, estando hoje transformada na Universidade de Marília”.

Paulo Corrêa de Lara registra ainda que o Professor Glycerio Póvoas viveu até 17 de janeiro de 1963, ou seja, seis anos da minha chegada a Marília.

Isto posto fico pensando cá comigo, no aconchego do meu lar e após ver pela televisão o empate por 2 a 2 no jogo entre Barcelona (de Messi) e Real Madri (de Cristiano Ronaldo), disputado na Capital da Catalunia, que foi muito bom ter revisado minha biblioteca pessoal, onde encontrei o presente que ganhei de Toninho Netto há quase 42 anos, em 26 de outubro de 1970.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968.

09/10/2012 00:04:24  (horário de Brasília)

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