terça-feira, 12 de outubro de 2010

Por quê? (210) Silêncio mortal


Cláudio Amaral

Meu Amigo Creso Moraes, residente em Curitiba, sumiu por meses e só no dia da morte dele é que fiquei sabendo que passava os dias dizendo que a vida não tinha mais sentido.

Antônio De Salvo, morador em São Paulo e outro cidadão do meu relacionamento, que nos deixou no mesmo ano (2008), havia ficado recluso por meses e não queria visitas.

Uma vizinha nossa aqui na Aclimação, em São Paulo, cujo nome eu omito porque sei que ela assim prefere, também está vivendo só por opção.

Esses são apenas três de muitos casos que conheço de gente que se isola na doença.

Em geral porque estão em estado terminal, ou seja, com os dias contados, ainda que não saibamos quantos dias a pessoa continuará vivendo.

Ainda em 2008 fui buscar explicações para isso e alguém me disse que as pessoas são assim mesmo: isolam-se para que outros não tomem conhecimento dos seus sofrimentos.

Na última semana de abril de 2010 a Editora Abril fez capa da revista Veja com o tema “Ajuda para morrer”.

Dizia, também na capa, não por acaso impressa na cor negra: “Médicos, pacientes e familiares relatam como enfrentaram o momento em que a vida se tornou apenas o prolongamento da morte”

E anunciava: “O que muda com o novo Código de Ética Médica”.

A revista me chamou a atenção imediatamente.

O motivo era presente: eu acabara de enterrar minha mãe, em Campo Grande, que há anos vivia a me dizer – a mim e à minha irmã Clélia – que não via mais sentido na vida.

Comprei.

Li.

Reli.

Reli em abril e agora, outubro de 2010, exatamente por conta do isolamento da minha vizinha.

O texto assinado por Adriana Dias Lopes é chocante.

Ela ouviu médicos e pacientes.

Um deles, o infectologista Artur Timerman, confessou a Adriana Dias Lopes: “Meu paciente estava em estado avançado do sarcoma de Kaposi (um tumor maligno descrito pelo médico hugaro Moritz Kaposi em 1872, em Viena, na Áustria), câncer comum entre pacientes de aids. Seu corpo estava coberto de úlceras que não cicatrizam e nenhum medicamento aplacava sua dor. Ele me pediu para sedá-lo e deixá-lo ir. Conversamos muito sobre o assunto e, três meses depois, fiz a vontade dele”. E acrescentou: “Orgulho-me de ter respeitado a autonomia de meu paciente”.

Cada vez mais eu concordo com os médicos que agem assim, ainda que eu não me sinta encorajado a me isolar, mesmo sabendo que esteja condenado a conviver com uma doença incurável.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968.

12/10/2010 16:54:04

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