segunda-feira, 23 de junho de 2008

Por quê? (99) A felicidade da figura



Cláudio Amaral

Amanheceu chovendo na Capital paulista, nesta segunda-feira, 23 de junho de 2008.

Mesmo assim, aquela figura no mínimo inusitada, à qual me referi pela primeira vez no dia 9 de janeiro de 2008, uma quarta-feira, pulou cedo da cama, se vestiu com simplicidade, tomou o café da manhã, pegou o guarda chuva e foi para a rua.

Para espanto geral, na família, saiu a pé.

Estava bem agasalhada e protegida do frio e da chuva.

Na mão esquerda, tinha uma sacola de plástico que ganhara no sábado, numa papelaria da Rua Dr. Diogo de Faria, onde comprara 40 envelopes.

Na mão direita, carregava o guarda chuva.

No Metrô Ana Rosa, tomou o rumo do terminal Jabaquara.

Duas estações depois, desceu.

Estava no Shopping Santa Cruz e, como o relógio ainda marcava 8 horas da manhã, todas as lojas permaneciam fechadas.

Abertas, somente as cafeterias e as lanchonetes.

Nenhuma delas, entretanto, chamou a atenção da figura. Ela estava satisfeita com o café da manhã tomado em casa, com a esposa.

Ao sair do Metrô/shopping, tomou o rumo da Rua Loefgreen, em direção ao Parque do Ibirapuera.

Menos de 200 metros depois, a figura no mínimo inusitada foi abordada por uma transeunte, uma mulher jovem – jovem, mas já em idade adulta – com cara de assustada.

Foi quase na esquina da Loefgreen com a Rua Machado Bittencourt.

- O senhor poderia me dizer onde fica a Rua Padre Machado?, perguntou a mulher.

De pronto, a figura disse sim.

Em seguida, olhou direto nos olhos daquela que ela, a figura, iria definir no ato seguinte como “perdida”.

Além de perdida, ou talvez exatamente por conta disso, a mulher se mostrava assustada.

- Ela está procurando a Rua Padre Machado, foi erroneamente encaminhada para a Machado Bittencourt e, por conseqüência, deve estar atrasada para o primeiro dia de trabalho num apartamento qualquer.

Assim que se livrou desse pensamento, a figura explicou para a “perdida e assustada” como ela chegaria à Rua Padre Machado.

Explicou e repetiu. E, pelo jeito, foi clara. A tal ponto, que a mulher sorriu, agradeceu e seguiu o caminho dela.

Ao sorrir, a “perdida” mostrou dentes branquíssimos, aparentemente perfeitos, lindos. Dentes típicos dos seres humanos da raça negra. Dentes de fazer inveja para qualquer branquelo, pardo ou amarelo.

Ato contínuo, a figura seguiu o respectivo caminho, rumo ao objetivo que perseguia: o Hospital São Paulo.

Ela, a figura, havia sido encarregada de entregar em torno de 60 envelopes naquele local. Todos estavam devidamente endereçados e eram dirigidos a uma elite de professores doutores especializados em oncologia, patologia, epidemiologia hospitalar, vigilância epidemiológica, prevenção e controle de infecção hospitalar, avaliação e controle ambiental, infecções em UTI, em transplante de órgãos sólidos, em unidades de internação e pediátricas, anestesiologia, psiquiatria, oncologia, farmácia, enfermagem, cirurgias plástica, torácica, vascular e outras tantas. Todas absolutamente desconhecidas pela figura.

Nem por isso – o desconhecimento total dos citados assuntos – ela, a figura, deixou de se empenhar na missão de fazer cada um daqueles envelopes chegar às mãos dos destinatários.

No protocolo, na Rua Botucatu, 740, a figura, humildemente, pediu ajuda a duas senhoras.

A humildade era tanta, que ambas dedicaram mais de meia hora ao mensageiro, ou melhor, à figura que ali estava.

Ficaram com mais da metade dos envelopes e orientaram a figura a se dirigir à Rua Pedro de Toledo, 715, de onde ela foi encaminhada para a Rua Napoleão de Barros, também 715.

Em 65 minutos a missão estava cumprida, ou seja, todos os envelopes entregues nas devidas portarias do HSP.

Certa de que nada mais tinha nem poderia fazer para que a correspondência atingisse os destinatários, a figura abriu novamente o guarda chuva, rumou da Napoleão de Barros até a Borges Lagoa, subiu até o Metrô Santa Cruz e de lá tomou o caminho de volta.

Voltou feliz, embora uma pouco cansada da caminhada ladeira acima pela Borges Lagoa.

- A felicidade compensa o cansaço, pensou ela, a figura.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, nobre e inteligente e-leitor?

23/6/2008 18:41:20

2 comentários:

jr.torres disse...

Do texto nem preciso dizer. Para dizer que não disse nada, é comparável à foto: maravilhosa!
Um grande e forte abraço!

Blog do Cláudio Amaral disse...

Torres, bom dia. E que dia, e que frio.

Bem, Amigo, do texto eu também nada posso dizer, porque sou o autor, por conseqüência, suspeito.

Mas, da foto eu posso falar: da foto, da linda, querida e graciosa Sofia Bianco Vitorino e do autor da imagem, o Amigo Marcello Vitorino, fotojornalista de mão cheia.

Abraços a todos.

Cláudio Amaral