terça-feira, 8 de setembro de 2009

Por quê? (179) Adeus, Rui Viotti


Cláudio Amaral

Sou daqueles jornalistas que têm uma dívida eterna para com Rui Villara Viotti, o Rui Viotti (foto) do rádio e da televisão, falecido no dia 7 de setembro deste ano de 2009, prestes a completar 80 anos de idade.

Ele nasceu em 26 de setembro de 1929.

Eu, em 3 de dezembro de 1949, ou seja, mais de 20 anos depois.

Ele nasceu em Caxambu, Minas Gerais, cidade que ainda não conheço.

Eu, em Adamantina, no interior paulista, localidade que ele pode até ter conhecido, tantas foram as andanças que fez pelo Brasil e o mundo.

No ano em que eu nasci, ele era locutor profissional há cinco anos e já estava no Rio de Janeiro a participar de um concurso promovido pela Rádio Tupi para a escolha do substituto de Ary Barroso, o mais famoso narrador esportivo da época.

De lá para cá, Mestre Rui Viotti fez de tudo no rádio.

No Rio de Janeiro e depois em São Paulo, onde nos conhecemos.

Mas não foi no rádio que eu fui conhecer Rui Viotti, que trabalhou na Tupi, na Nacional e na Tamoio.

Fui ter com Rui Viotti na televisão.

Na TV Bandeirantes, precisamente, na época em que a emissora da Família Saad tinha a programação de domingo totalmente tomada pelas transmissões e promoções esportivas.

O comando era de Luciano do Valle, mais conhecido como o “Luciano do Vôlei”.

O cérebro de tudo, entretanto, era o Mestre Rui Viotti.

Na época em que nos conhecemos, Rui Viotti já era um senhor, sério, experiente e respeitável; havia trabalhado na primeira emissora de TV do Brasil, a Tupi (simultaneamente com a Rádio Tupi), na TV Rio e na TV Globo.

Eu era um principiante perto da grandeza de Rui Viotti, que substituiu profissionais do porte de Ary Barroso (nas transmissões esportivas das tardes de domingo, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro) e Julio De Lamare (no comando do Jornalismo Esportivo da Rede Globo, em 1973, a convite de Walter Clark, quando o titular faleceu no trágico acidente aéreo do aeroporto de Orly, na França).

Rui Viotti participou das transmissões esportivas de todas as copas do mundo de futebol, desde 1950, narrando jogos ou na retaguarda. Mas a narração mais marcante que ele fez foi quando Gustavo Küerten venceu pela primeira vez o Grand Slam de Roland Garros, na França, em 1997.

Bem antes disso, entretanto, em 1985, nossas carreiras se cruzaram e ele, sempre gentil e prestativo, me ensinou tudo e mais um pouco a respeito dos bastidores da televisão e das minúcias do tênis.

O fato mais marcante – e portanto inesquecível para mim – de nosso trabalho conjunto, se deu na pista de atletismo do Complexo Poliesportivo do Ibirapuera, em São Paulo.

Uma jovem – e linda – repórter da TV Gazeta me pediu para falar com “alguém da organização” do evento que eu ajudava a divulgar, e não tive dúvida: levei a moça até o Mestre Rui Viotti.

Ele, como sempre fazia com todos nós, a tratou da melhor maneira possível, deu todas as explicações e por fim aceitou gravar uma sonora para a televisão.

Terminado o trabalho, e antes de agradecer as gentilezas todas de Rui Viotti, ela disse:

- Como o senhor fala bem.

E emendou:

- O senhor nunca teve medo do microfone, nem da câmera de televisão?

E ele, humildemente, respondeu que “não”.

Poderia ter dito que ganhava a vida empunhando microfones e encarando câmeras de televisão desde os 15 anos, ou seja, há 40 anos, mas preferiu poupar a foquinha de um constrangimento desnecessário.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que, caro e-leitor?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968, repórter, editor, professor e orientador de jovens jornalistas, palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação empresarial e institucional.

8/9/2009 20:03:16

Um comentário:

Sueli Amaral de Novais disse...

Cláudio,

Como amiga e ex-funcionária do Rui, quero agradecer a matéria do seu blog sobre este excepcional profissional e acima de tudo excelente pessoa, de caráter reto e integro como infelizmente é raro se encontrar hoje em dia. Tenho a sensação que a “forma” em que foram feitos homens como ele, se perdeu.

Agradeço também por lembrar dele de forma tão carinhosa e reconhecida, pois neste país de memória curta, tendemos a esquecer os grandes homens e seus grandes feitos, mas para nossa felicidade o senhor foi uma boa exceção. Minha maior tristeza foi acompanhar o ostracismo e descaso sofrido pelo Rui no final de sua carreira, mas como amiga e fã sou suspeita em minhas opiniões.

Agradeço novamente em memória do nosso grande e inesquecível Rui Viotti.

Sueli Amaral de Novais