quinta-feira, 13 de março de 2008

Por quê? (63) Carros velhos

Cláudio Amaral

Há tempo, muito tempo, descobri que “toda moeda tem dois lados”.

Desde então eu vivo dizendo e repetindo: “toda moeda tem dois lados”.

E não é que, vez ou outra, essa afirmativa tem se virado contra mim?!

Pois tem.

Tanto tem que hoje apareceu no meu correio eletrônico uma mensagem de um e-leitor me cobrando: “se você acredita, de verdade, que ‘toda moeda tem dois lados’, se vira e se veja no espelho”.

Ele se referia ao fato de eu ter encerrado a crônica anterior com a seguinte afirmação: “que tal tirar de circulação todos os veículos que estão caindo aos pedaços?”

Para terminar de me encurralar, me jogar contra minha própria afirmação, ou, se você preferir, me fazer queimar a língua, ele, o e-leitor, me desfiou: “duvido que você nunca tenha tido um carro velho”.

Dito e feito, meu caro e-leitor.

Tive, sim, um carro velho. E, se você quiser, posso até te dar detalhes: meu carro velho era uma Brasília com mais de 20 anos de uso. E tem mais: era verde, a cor mais rejeitada pelos torcedores do Corinthians, como eu.

Proprietário confesso de um carro velho, meu e-leitor argumentou: “se eu me desfizer da minha Parati ou perder o direito de continuar a circular com ela, ficarei sem condições de trabalhar, porque de ônibus eu não consigo transportar as mercadorias que eu e minha esposa vendemos na Rua Mairinque, junto ao Liceu Pasteur, na Vila Clementino”.

As mercadorias a que ele se refere são sucos, café, cural de milho, paçoca de amendoim com leite condensado, cachorro quente, ‘pit bull’ (uma espécie de cachorro quente com lingüiça especial), esfihas, etc.

“Fazemos, minha esposa e eu, tudo em casa, com o maior cuidado e capricho”, explicou o meu e-leitor.

“Usamos produtos de primeira qualidade, do amendoim para fazer paçocas ao milho verde para preparar o cural”, acrescentou o ambulante do Ipiranga, que usa a mesma Parati há nove anos para ir às compras e para fazer o trajeto entre o bairro em que o casal reside e o local em que arma a barraca, toda sexta-feira à noite.

Meu Deus! Quantos casais existem nessas condições?! Quantos cidadãos paulistanos e brasileiros dependem dos respectivos carros velhos para ganhar o pão nosso de cada dia?

E eu, que rodo pra baixo e pra cima de carro novo, fico aqui a defender a retirada dos carros velhos de circulação.

Perdão, Senhor!

Peço perdão a Ti e a todas as pessoas com quem fui injusto.

Por quê?

Ah... e você ainda me pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com e do http://aosestudantesdejornalismo.blogspot.com.

13/3/2008 18:05:06

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