sábado, 23 de fevereiro de 2008

Por quê? (50) Hayashi

Cláudio Amaral

Voltei no tempo por 40 anos, na tarde deste sábado, 23/2/2008.

O fato ocorreu ao final de meu encontro de negócios com o casal Gláucia e Cláudio Hayashi, na Vila Clementino, em São Paulo.

Assim que ela me disse o sobrenome do casal, senti um frio na barriga.

De imediato, lembrei-me de Adamantina nos anos 1960.

Eu era um rapaz de 18 anos, aproximadamente.

Já somava 12 anos de trabalho ininterrupto.

Meu melhor Amigo, na época, é uma pessoa que nunca esqueci e de quem jamais esquecerei.

Lembro-me do nome dele em detalhes: Adhemar (com h, tal qual o ex-governador do Estado de São Paulo) Shigueto Hayashi.

Nos conhecemos no grupo de jovens da Seicho-No-Ie.

Eu era o único integrante do grupo que não tinha descendência nipônica.

Nem por isso fui discriminado. Nunca. Jamais.

Tanto isso é verdade que cheguei a ser presidente da Associação dos Jovens da Seicho-No-Ie de Adamantina.

Hayashi também foi presidente da entidade e na gestão dele criamos aquele que viria a ser o meu primeiro jornal: O Sorridente.

Nas páginas daquele jornalzinho eu publiquei meus primeiros textos: notas, notícias, piadas, comentários e até... crônicas.

Eu ajudava Hayashi a editar O Sorridente, acompanhava a produção na gráfica, da composição ao final da impressão.

Foi ali que comecei a por pra fora minha tendência para o Jornalismo.

Além de escrever, editar e acompanhar a produção, eu também distribuía o jornalzinho dos jovens da seita criada pelo Mestre Masaharu Taniguchi.

Entregava em mãos cada exemplar, como se O Sorridente fosse um filho que eu ainda não tinha.

Mantinha uma coleção de cada edição na sede da Seicho-No-Ie e outra em minha casa.

Quando mudei para Marília, no dia 6 de janeiro de 1969, minha coleção foi comigo, mas não durou muito. Um dia, ao chegar em casa, na Avenida República, em Marília, vi que minha mãe havia usado meus jornalzinhos para tapar algumas frestas do nosso lar, exatamente entre as paredes de tijolos e as de madeira.

Chorei, mas nada pude fazer.

E foi assim que me despedi do meu primeiro jornal, O Sorridente.

Na época, meados de 1969, eu já não tinha notícias de Hayashi há anos.

Lembrava-me sempre dele, porque, além da nossa convivência na Seicho-No-Ie, por anos trabalhamos juntos na loja do tio dele: Hayashi como vendedor de máquinas de costurar, rádios e fogões; eu, como auxiliar dele.

Só voltei a saber de Hayashi em 1971, quando já estava casado e morando com Sueli aqui na Aclimação, em São Paulo.

Eu trabalhava no Estadão, no centro da cidade. Mesmo assim vinha almoçar em casa todo dia e, certo dia, ao entrar num trolebus da CMTC, a Companhia Municipal de Transportes Coletivos, dei de cara com um colega dos tempos de Seicho-No-Ie e ele me disse, na lata:

- Sabe quem morreu?

Como eu disse que não, ele acrescentou:

- A Keiko, mulher do Hayashi.

Tremi nas bases e com muita dificuldade cheguei em casa, na Rua Dr. Nicolau de Souza Queiroz, 915.

Chorei de novo.

Chorei pela minha Amiga Keiko Kawabata Hayashi e pelo meu Amigo Adhemar Shigueto Hayashi, que ainda deve residir em Barra do Piraí, no Estado do Rio de Janeiro.

E deles me lembrei hoje à tarde, graças ao casal Glaucia e Cláudio Hayashi.

Por quê?

E você ainda me pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com e do http://aosestudantesdejornalismo.blogspor.com.

23/2/2008 22:53:26

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