quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Por quê? (48) Lázaro

Cláudio Amaral

O Evangelho de hoje, quinta-feira, 21/2/2008, me fez lembrar de uma das pessoas mais marcantes da minha vida: meu pai.

Por quê?

Porque o correio eletrônico que recebo diariamente das Paulinas me trouxe uma mensagem intitulada “A parábola do rio e de Lázaro”.

A mensagem é rica em significados.

Tão rica que eu a transcrevo aqui para que todos vocês, meus e-leitores, tenham oportunidade de conhecer...

A parábola do rico e de Lázaro
Lucas 16,19-31
Jesus continuou: - Havia um homem rico que vestia roupas muito caras e todos os dias dava uma grande festa. Havia também um homem pobre, chamado Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas, e que costumavam largar perto da casa do rico. Lázaro ficava ali, procurando matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do homem rico. E até os cachorros vinham lamber as suas feridas. O pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão, na festa do céu. O rico também morreu e foi sepultado. Ele sofria muito no mundo dos mortos. Quando olhou, viu lá longe Abraão e Lázaro ao lado dele. Então gritou: "Pai Abraão, tenha pena de mim! Mande que Lázaro molhe o dedo na água e venha refrescar a minha língua porque estou sofrendo muito neste fogo!" - Mas Abraão respondeu: "Meu filho, lembre que você recebeu na sua vida todas as coisas boas, porém Lázaro só recebeu o que era mau. E agora ele está feliz aqui, enquanto você está sofrendo. Além disso, há um grande abismo entre nós, de modo que os que querem atravessar daqui até vocês não podem, como também os daí não podem passar para cá." - O rico disse: "Nesse caso, Pai Abraão, peço que mande Lázaro até a casa do meu pai porque eu tenho cinco irmãos. Deixe que ele vá e os avise para que assim não venham para este lugar de sofrimento." - Mas Abraão respondeu: "Os seus irmãos têm a Lei de Moisés e os livros dos Profetas para os avisar. Que eles os escutem!" - "Só isso não basta, Pai Abraão!", respondeu o rico. "Porém, se alguém ressuscitar e for falar com eles, aí eles se arrependerão dos seus pecados." - Mas Abraão respondeu: "Se eles não escutarem Moisés nem os profetas, não crerão, mesmo que alguém ressuscite."

Meu pai foi Lázaro Alves do Amaral.

Nunca pensei em perguntar à minha avó paterna, Celeste, porque ele, meu pai, recebeu esse nome.

Mas, certamente, foi em homenagem à personagem bíblica à qual se refere o Evangelho de hoje.

Contra a vontade de minha mãe, meu pai me batizou Cláudio Lázaro Alves do Amaral. E ficou contrariado quando leu minhas primeiras reportagens e viu que elas foram publicadas com apenas o meu primeiro nome e o último sobrenome.

Expliquei a ele que isso era normal, uma praxe no Jornalismo, assinar apenas dois nomes: Juarez Bahia, Carlos Conde, Joel Silveira, Paulo Markun, Regina Echeverria, Nelson Urt, Carlos Lacerda, Daniel Pereira, Clóvis Rossi, Samuel Wainer, Eduardo Martins, Nelson Rodrigues, Augusto Nunes, Carmo Chagas, Machado de Assis, Renata Cafardo, Sérgio Leitão, José Mindlin, Luís Nassif, Antônio Callado, Reali Jr., Fernando Morais, Gay Talese, Almyr Gajardoni, Eduardo Nunomura, Mino Carta, Carlos Brickmann, Zuenir Ventura, Ricardo Kotscho, Carlos Prata, Vladimir Herzog, Plínio Marcos, por exemplo.

Exceções existiram e existem, mas são exceções: José Maria Mayrink, Mario Vargas Llosa, Carlos Eduardo Lins da Silva, Nelson Werneck Sodré, Gabriel Garcia Márquez, Rubens Ewald Filho, Luiz Adolfo Pinheiro, Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Roberto de Souza Queiroz, Otávio Frias Filho, Luiz Augusto Michelazzo, Corrêa Neves Júnior, Júlio de Mesquita Neto, Ramão Gomes Portão, Caio Túlio Costa são os exemplos que me ocorrem no momento.

Se ele, meu pai, entendeu ou não, nunca fiquei sabendo.

Sei apenas que ele mostrava com orgulho as páginas do Estadão nas quais eram publicadas minhas reportagens.

Mas, quem foi meu pai?

Foi um exemplo de pessoa.

Um exemplo em matéria de trabalho, de honestidade, de solidariedade.

Ele tinha defeitos? Sim, como todos nós.

Mas, era carinhoso e atencioso com os filhos, com os filhos dos filhos, com os amigos dos filhos, com os sobrinhos dos filhos...

Uma prova disso, que me lembro sempre, é que meus sobrinhos, mais sobrinhos de Sueli do que meus, sempre o chamaram de “vovô Lazinho”.

André Guilherme, Rogério Alexandre e Paula, filhos de José Cláudio e Lúcia Helena, faziam festa quando encontravam meu pai pelas ruas de Marília e invariavelmente gritavam: “vovô Lazinho, vovô Lazinho”.

Cristiano, Gustavo e Luciano, filhos da minha irmã caçula, Clélia, também eram muito ligados a meu pai.

Cláudia, Mauro e Flávio, meus filhos, infelizmente, não tiveram tanta convivência com ele, porque sempre moramos em São Paulo, a 460 quilômetros de Marília, cidade em que meu pai viveu os últimos anos de vida.

Profissões e atividades profissionais meu pai teve incontáveis. Mas, a mais marcante, para mim, pelo menos, foi a de tintureiro.

Ele foi empregado em lavanderias e tinturarias em São Paulo, nos anos 1950, quando eu também trabalhei com ele.

De volta a Adamantina, logo após a Copa do Mundo de 1958, ele montou a própria, a Lavanderia e Tinturaria Adamantina.

Poucos meses após minha mudança para Marília, onde fui trabalhar no Jornal do Comércio, em janeiro de 1969, ele, minha mãe, minha irmã caçula e meu irmão Clówis também se mudaram pra lá.

E lá ele faleceu em 1985.

Faleceu deixando um exemplo vida simples, dura, difícil, mas exemplar em todos os sentidos.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional e criador do http://blogdoclaudioamaral.blogspot.com.

21/2/2008 18:47:47

Um comentário:

AI Mauro Amaral disse...

Belo texto, Paizão!

Pena eu ter tido poucas oportunidades de conviver com o vô Lazinho, que como você citou, faleceu em 1985, quando eu tinha apenas nove anos.

Mais um exemplo de nome triplo que virou duplo foi o do querido tio Paulo, ele mudou o nome jornalístico de Paulo César Bravos para Paulo Bravos, reclamando que erravam seu nome nas legendas das fotos.

Para quem se interessar, mais sobre ele em:

www.arfoc-sp.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=546&Itemid=70

www.picturapixel.com/blog/?p=1484

www.arfoc-sp.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=526&Itemid=70