quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Por quê? (8) UTI

Cláudio Amaral

Enquanto ouço pela Rádio Eldorado AM o jogo Grêmio X Corinthians, em Porto Alegre, fico a me lembrar, talvez para sofrer menos com o Timão, que um Amigo muito querido está em situação bem mais complicada na UTI do Hospital Paulistano, no bairro do Paraíso, aqui em São Paulo.

É o repórter fotográfico de profissão Paulo César Bravos, que na noite de 8 de novembro sofreu um acidente na Rua Borges Figueiredo, na Mooca, pertinho da Imprensa Oficial do Estado, onde fui gerente de Redação por 5 anos e 45 dias, entre 1998 e 2003.

Paulinho estava num grupo de 40 ciclistas que pedalavam pelas ruas paulistanas, na Zona Leste, quando a roda da frente da bicicleta dele entrou numa grelha da rua, ele voou de cabeça no chão e pronto.

Desde então a família e os amigos só fazem sofrer diante da situação do repórter do Diário de São Paulo, que um dia veio de Marília para ser apontador nas obras da linha o Metrô, viajou a América do Sul, militou pelo PT, fez samba para escolas que brilharam na passarela do Parque Anhembi e, para colocar a saúde em ordem, pedalava diariamente pelas ruas da maior cidade do País e do continente.

Graças à competência dos médicos e à fé da família e dos amigos, que pedem a Deus pela recuperação de Paulo César durante as 24 horas do dia, ele vem melhorando. Aos poucos, mas tem melhorado.

O drama que envolve o terceiro filho do casal Cidinha e José Arnaldo (saudoso jornalista mariliense que por 40 anos escreveu a coluna De Antena e Binóculos no extinto Correio de Marília), tem me levado a prestar cada vez mais atenção nos ciclistas que cruzam os meus caminhos.

Por quê?

Não sei. Só sei que na semana passada, quando fui aos Correios, ao cartório da Vila Mariana e à Nossa Caixa, dois ciclistas me fizeram parar na esquina das ruas Domingos de Moraes e Joaquim Távora.

Um, ou melhor, uma, porque pedalava sem qualquer equipamento de segurança.

Outro, porque trafegava na contramão.

“Por que?”, me perguntei.

Sem resposta, voltei para casa, na Aclimação, “o bairro mais agradável de São Paulo”.

Os dias se passaram e na sexta-feira, último dia de novembro, me vi de cara com um ciclista na Rua Dr. Diogo de Faria.

Respirei fundo, criei coragem, pedi licença e perguntei:

“Esse...” – quase disse ‘troço’, mas me segurei e nada falei, apenas apontei para aquele arremedo de capacete que os ciclistas usam sobre a cabeça – “protege?”

Para minha surpresa, o ciclista me respondeu:

“Quem protege é Deus”.

“Com certeza”, respondi. E, ato contínuo, comecei a falar do acidente que vitimou Paulo César Bravos.

Por quê?

Sei, não.

Sei apenas que tudo o que se refere ao pessoal que pedala pela cidade me chama a atenção.

Nada, entretanto, me chamou mais a atenção do que a cena que vi pouco antes das 10 horas da manhã deste domingo, na esquina das ruas Domingos de Moraes com Pedro de Toledo: um ciclista pedalando e falando ao celular.

Só isso?

Não.

Ele falava e pedalava – sim, ele conseguia pedalar e falar ao celular ao mesmo tempo – sem preocupação alguma com a segurança: trafegava na contramão, sem capacete (nem mesmo aquele ‘troço’ que os ciclistas costumam levar sobre a cabeça), de chinelo, sem proteção para os joelhos e cotovelos, sem...

Por quê?

Quem souber que me diga.

(*) Cláudio Amaral
clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

2/12/2007 20:36:24

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