quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Por quê? (31) O vidro


Cláudio Amaral

A figura no mínimo inusitada a que me referi na crônica do dia 9/1/2008 foi vista novamente na manhã deste sábado, 26/1/2008.

Primeiro, na Avenida Altino Arantes, quase esquina com a Rua Domingos de Moraes, na Vila Clementino, zona sul da Capital paulista.

Depois, na Rua Mário Amaral, no Paraíso.

De carro – sim, desta vez ela, a figura, estava motorizada –, chegou antes das 9 horas junto ao Colégio Nossa Senhora do Rosário, na Altino Arantes.

Chegou e estacionou na diagonal um Fit Honda com pouco mais de 2.000 quilômetros rodados.

Cinza, bonito, ainda que meio sujo, o automóvel chamou a atenção de uma mulher de olhos puxados.

“Seu carro está novo”, disse ela, a oriental.

“Quem me dera ter um carro assim”, respondeu a figura.

A mulher recolheu o sorriso e foi em frente.

Certamente, pensara: “Se não é seu, de quem é? Você o roubou? De quem? Onde?”

Se pensou, não falou.

Não falou por precaução? Por medo? Por timidez?

Quem sabe.

O certo é que a figura no mínimo inusitada nada percebeu e 40 minutos depois foi embora no Fit.

Subiu a Altino Arantes, entrou à esquerda na Domingos de Moraes, na continuação rodou a Rua (ex-estrada do senador) Vergueiro, passou sobre o Viaduto Santa Generosa, fez a volta logo após o Shopping Paulista e desceu a Rafael de Barros até a Mário Amaral.

Depois de entrar à esquerda na Mário Amaral, estacionou em frente ao prédio em construção no número 432.

Lá, procurou o vigia e pediu para ver o apê à venda.

“É o 21”, disse o rapaz, de nome José Ailton.

“Pode subir e ver”, acrescentou uma figura de baixa estatura, chinelo de dedos, calça curta e camiseta de quem não se assusta mais com o frio de São Paulo, embora tenha vindo lá de cima, ou seja, dum daqueles estados quentes do norte ou do nordeste.

Apartamento visto, a figura no mínimo inusitada desceu, pisou a calçada novamente e lá ficou, como se estivesse a esperar alguém.

Nisso, dois homens, pai e filho, saíram do prédio da frente carregando um vidro de dois metros de comprimento por um metro de largura.

Iriam levar o objeto transparente para o interior de uma Kobim branca, de placas CIV 4828.

Mas, com as quatro mãos ocupadas com o vidro, grande e pesado, eles não conseguiam abrir a porta do veículo.

Ai a figura não teve dúvida: entrou logo em ação e, como gosta de fazer sempre, se ofereceu para ajudar.

Pai e filho sorriram, aceitaram a ajuda e depois o velho, que não é tão velho assim, disse “obrigado” e acrescentou: “Deus lhe pague”.

Educada, católica praticante e temente a Deus, a figura devolveu o sorriso e respondeu: “Amem”.

Isto posto, virou sobre os sapatos comprados em Franca (SP), entrou no Fit e foi embora, feliz da vida.

Havia ganhado o dia.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

26/1/2008 14:43:43

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