sábado, 16 de fevereiro de 2008

Por quê? (45) Campo Grande (MS)


Cláudio Amaral

Trabalhei, como costumo dizer, oito meses em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, e não de Mato Grosso, como ainda pensam muitos brasileiros.

Foi de agosto de 2004 a março de 2005.

O início e o final dessa jornada foram dolorosos.

Chorei muito quando lá cheguei e quase fui às lágrimas quando de lá sai.

Nos primeiros dias, chorava facilmente de saudades da família, que ficou em São Paulo.

Temia que minha mulher e os nossos três filhos pensassem que os havia abandonado.

Precisava usar óculos escuros sempre que saia do Hotel Paradise, na Avenida Eduardo Elias Zarhan, em frente à TV Morena, afiliada da Rede Globo.

Procurava me acalmar e conter as lágrimas assim que me aproximava da sede do jornal em que fui trabalhar.

E antes de entrar na Redação passava no banheiro e lavava o rosto para me livrar da cara de choro.

Bastava dar início ao trabalho e esquecia de tudo e de todos.

Só quando deixava o jornal, 15 horas depois, é que voltava a sentir um aperto no peito e uma angústia que jamais sentira.

A situação se complicava quando eu entrava no pequeno apartamento do hotel.

Era mais quarto do que apartamento, por causa do tamanho e da falta de móveis e lugares para acomodar as roupas.

Nem onde deixar a escova de dente, o creme dental e a escova de cabelos eu tinha naquele cubículo.

Os dias foram passando, a saudade da família aumentando e a paciência esgotando.

E acabou no sexto dia, exatamente na data da primeira visita da Sueli.

Não tive dúvida: empenhei até as calças, juntei tudo o que havia levado de casa, joguei num Fiat batendo latas que era usado pelos repórteres do jornal e troquei o hotel da Avenida Zarhan por um apart-hotel da Rua das Garças, do outro lado da cidade.

Quando Sueli desembarcou no aeroporto de Campo Grande, quase meia-noite da primeira sexta-feira de agosto de 2004, o apartamento 23 do Brunette Studio ainda estava por ser arrumado.

E, para minha alegria, ela me ajudou a colocar tudo em ordem.

Em menos de duas horas as roupas estavam todas no amplo guarda-roupas, a cama com lençóis e travesseiros limpos e cheirosos, a cozinha pronta para uma refeição digna e o banheiro em condições de permitir que lavássemos até da alma.

Não deu outra: vivemos momentos inesquecíveis naquele que batizamos de “ninho de amor”.

Lá e em muitos outros lugares da capital sul-mato-grossense: nos cinemas, nos teatros, nas livrarias, nos sebos, no único shopping da cidade, nos parques, nas ruas e avenidas amplas e arborizadas, nas igrejas – especialmente na do Colégio Dom Bosco, na Avenida Mato Grosso –, nas unidades do Sesc, no mercadão, na feirona, nos bons restaurantes e nas padarias.

Sim, nas padarias, porque Campo Grande tem padarias inigualáveis e inesquecíveis.

Até amigos fizemos por lá: gente de televisão (em especial a apresentadora Ana Volpe, que morava no mesmo andar), o casal de feirantes que acabei transformando em personagens no jornal, alguns outros vizinhos, o barbeiro, a manicure e até funcionários do apart-hotel.

Colegas de trabalho, também. Em especial os editores Nelson Urt e Walter Gonçalves (o Waltinho, que levei de Araçatuba, mais a mulher, Ge, e os dois filhos: Rodrigo e Bruna, que adotei como sobrinhos).

Foi um tempo difícil para mim e para Sueli.

Para os filhos também, porque eles tiveram que se adaptar, em casa, à ausência dos pais: eu, que viajava uma vez por mês a São Paulo, e Sueli, que passava duas semanas na capital paulista e outro período igual comigo, em Campo Grande.

Tiveram, os filhos, ainda, que assumir boa parte das despesas da nossa casa em São Paulo.

De tudo isso, sobrou uma união ainda mais forte entre eu e Sueli e nós dois e os filhos.

Cada um soube reconhecer a importância dos outros.

E todos conheceram na pele e na carne a importância da família.

Hoje, a família é outra.

Cada um está mais forte.

A confiança entre todos aumentou.

A fé em Deus cresceu.

E eu vivo agradecendo a Ele, diariamente, por ter-me feito ver que sempre é possível ser mais feliz. Por mais feliz que alguém seja.

Por quê?

Ah... e você ainda pergunta por que?

(*) Cláudio Amaral clamaral@uol.com.br é jornalista desde 1º de maio de 1968; professor e orientador de jovens jornalistas; palestrante e consultor de empresas para assuntos de comunicação institucional.

Franca (SP), 04/07/2005 23:09:16

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